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Em vida
Data 18/out/2001

As begônias exalando encantos. No corpo rugoso do coqueiro. O desprendido amor da rubra orquídea. Ao caule presa. Sua haste. O seu escarlate amor aberto em pétalas-riso para quem as olhar se põe. Maviosas flores. Seu pólen exposto a visitações. As abelhas. Borboletas. Beija-flores. Permanentes freqüentadores.

São flores. Têm também o dom de enfeitar. De encantar. Abertas. Seu mel. Seu sedução. Sua fragrância. Decerto vêm certas de que são para agradar. A panorâmica janela infiltra o jardim pelo escritório. Grato, recebo a oferenda com que me privilegiam. Prestam-se-me dadivosos. Tudo em nome da vida. A face sagrada da vida. O belo. Verdade maior. (Cordeiro e lobo a admirarem-se mutuamente. A se perdoarem mutuamente. A preservarem-se mutuamente o dom da vida.) A harmônica manifestação da vida. Com suas begônias. Orquídeas. Beija-flores. Abelhas. Borboletas. Seus homens. Para que as desarmonias sejam suportáveis. Desarmonias que os homens fabricam.

Assim a dadivosa natureza. Instaurando o belo. A harmonia prevalecente. (Que lobos e cordeiros se estranhem. Provisoriamente se desarmonizem. Contudo, se preservem. Se curvem ante ao dom da vida de cada um. A ela reverenciem. Graça concedida a todos. Sagrado direito de todos.)

Por isso, o jardim. Nele, a alegria dos pardais. O milagre das flores. A incomum borboleta. O raro pássaro magnífico de passagem. A exuberante permanência dos bem-te-vis. O súbito beija-flor. Por mais vistos que sejam. Sempre surpreendem.

Surpresa assustadora e comovente. Quando, uma dia invadiu-me o escritório. Petrificadamente encantado. Apenas olhar. Depois de adejar o espaço. Depois de pouso largo sobre o ventilador. Depois de confiadamente pôr-se a ficar pinicando cada asa. Depois de arrupiar-se. Sacudir-se. Depois de algum tempo dormir! Depois de acordar e espreguiçar-se em cada asa. Depois de ir à mesa beber da água da minha caneca! E tornar ao ventilador. Para ali mais tempo ficar. Depois. Pôs-se a voar no cômodo em torno. Cujas três paredes cintam-se com quadros. E foi quadro por quadro. Em seu vôo parado. A cada um como se os beijasse. Beijos em Kandinsky. Beijos em Miro. Beijos em Picasso. Beijos em Portinari. Beijos em Di Cavalcanti. Beijos em Tarsila. Beijos em Lasar Segall. Beijos em Monet. Beijos em Renoir. Beijos em Van Gogh.

Depois voejou parando pelas estantes. Pousou nuns livros. (Era entre Drummond e Murilo.) Foi para outra. Pousou. (Entre entre Autran Dourado e Guimarães Rosa.) Ali evacoou. O esbranquiçado do excremento escorreu pelo corpo de Sagarana. Então decidiu-se ir. Gastou segundos pra lá, pra cá em busca da saída. Pouco demorou-se. Achou a janela.

O dono do escritório na cadeira. De onde tudo presenciara. Extático espectador. Inebriado espectador. Quase não crendo em tudo. Sentindo-se agraciado. Sentindo-se ungido. Os pássaros o visitavam. Rememorava. (Também os insetos.) Mais de um bem-te-vi já lhe visitara. O último também fez estada. Contudo a ida, ao contrário, foi dificultosa. Faltou-lhe a janela. Durante muito tempo. Ele interveio em ajuda. Foi trabalhoso. Semelhante com a mamangaba. Esta zunia furibunda pelo escritório. Mais furibunda, porque ao projetar-se para a claridade, chocava-se com os vidros. A intervenção acertada foi atirar-lhe uma toalha. Envolvida. Solta no jardim. Escafedeu-se. A borboleta azul também. Esbateu-se muito pela saída. Antes, contudo, permaneceu, como o colibri. Passeou. Pousou. Sua elegância pelo escritório. Suave e inebriante borboleta azul.

A espontânea harmonia da vida. Enquanto, no jornal aberto sobre a mesa, a desarmonia transpirando-se em quantas mazelas se quisesse saber.



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