As begônias exalando encantos. No corpo
rugoso do coqueiro. O desprendido amor da rubra orquídea.
Ao caule presa. Sua haste. O seu escarlate amor aberto em
pétalas-riso para quem as olhar se põe. Maviosas
flores. Seu pólen exposto a visitações.
As abelhas. Borboletas. Beija-flores. Permanentes freqüentadores.
São flores. Têm também
o dom de enfeitar. De encantar. Abertas. Seu mel. Seu sedução.
Sua fragrância. Decerto vêm certas de que são
para agradar. A panorâmica janela infiltra o jardim
pelo escritório. Grato, recebo a oferenda com que me
privilegiam. Prestam-se-me dadivosos. Tudo em nome da vida.
A face sagrada da vida. O belo. Verdade maior. (Cordeiro e
lobo a admirarem-se mutuamente. A se perdoarem mutuamente.
A preservarem-se mutuamente o dom da vida.) A harmônica
manifestação da vida. Com suas begônias.
Orquídeas. Beija-flores. Abelhas. Borboletas. Seus
homens. Para que as desarmonias sejam suportáveis.
Desarmonias que os homens fabricam.
Assim a dadivosa natureza. Instaurando o belo.
A harmonia prevalecente. (Que lobos e cordeiros se estranhem.
Provisoriamente se desarmonizem. Contudo, se preservem. Se
curvem ante ao dom da vida de cada um. A ela reverenciem.
Graça concedida a todos. Sagrado direito de todos.)
Por isso, o jardim. Nele, a alegria dos pardais.
O milagre das flores. A incomum borboleta. O raro pássaro
magnífico de passagem. A exuberante permanência
dos bem-te-vis. O súbito beija-flor. Por mais vistos
que sejam. Sempre surpreendem.
Surpresa assustadora e comovente. Quando,
uma dia invadiu-me o escritório. Petrificadamente encantado.
Apenas olhar. Depois de adejar o espaço. Depois de
pouso largo sobre o ventilador. Depois de confiadamente pôr-se
a ficar pinicando cada asa. Depois de arrupiar-se. Sacudir-se.
Depois de algum tempo dormir! Depois de acordar e espreguiçar-se
em cada asa. Depois de ir à mesa beber da água
da minha caneca! E tornar ao ventilador. Para ali mais tempo
ficar. Depois. Pôs-se a voar no cômodo em torno.
Cujas três paredes cintam-se com quadros. E foi quadro
por quadro. Em seu vôo parado. A cada um como se os
beijasse. Beijos em Kandinsky. Beijos em Miro. Beijos em Picasso.
Beijos em Portinari. Beijos em Di Cavalcanti. Beijos em Tarsila.
Beijos em Lasar Segall. Beijos em Monet. Beijos em Renoir.
Beijos em Van Gogh.
Depois voejou parando pelas estantes. Pousou
nuns livros. (Era entre Drummond e Murilo.) Foi para outra.
Pousou. (Entre entre Autran Dourado e Guimarães Rosa.)
Ali evacoou. O esbranquiçado do excremento escorreu
pelo corpo de Sagarana. Então decidiu-se ir. Gastou
segundos pra lá, pra cá em busca da saída.
Pouco demorou-se. Achou a janela.
O dono do escritório na cadeira. De
onde tudo presenciara. Extático espectador. Inebriado
espectador. Quase não crendo em tudo. Sentindo-se agraciado.
Sentindo-se ungido. Os pássaros o visitavam. Rememorava.
(Também os insetos.) Mais de um bem-te-vi já
lhe visitara. O último também fez estada. Contudo
a ida, ao contrário, foi dificultosa. Faltou-lhe a
janela. Durante muito tempo. Ele interveio em ajuda. Foi trabalhoso.
Semelhante com a mamangaba. Esta zunia furibunda pelo escritório.
Mais furibunda, porque ao projetar-se para a claridade, chocava-se
com os vidros. A intervenção acertada foi atirar-lhe
uma toalha. Envolvida. Solta no jardim. Escafedeu-se. A borboleta
azul também. Esbateu-se muito pela saída. Antes,
contudo, permaneceu, como o colibri. Passeou. Pousou. Sua
elegância pelo escritório. Suave e inebriante
borboleta azul.
A espontânea harmonia da vida. Enquanto,
no jornal aberto sobre a mesa, a desarmonia transpirando-se
em quantas mazelas se quisesse saber.