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Cavalheiro
Data 04/out/2001

Quem caminha sempre se encontra. Certa feita me disse alguém. Os viciados pela malhação. Sujeitos, alguns, de caminhos vários. Talvez para enganar. A si mesmo. Da mesmice monótona do lugar único. Ao corpo, para não moldarem-se os músculos ao terreno.

Um dia, admirador, perguntou-me daquela monotonia circular. Plana. Amortecente. Em estádios esportivos. Retruquei. Havia opções. Alternâncias. O bom praticante não se entrega, arrematei.

Então. Mais de algumas vezes o vi. E o tenho visto. Pelos descaminhos freqüentados pelos caminhadores. Estes os farejam. Aqueles os atraem. E acabamos nos encontrando nos lugares mais diversos. Constatei, pois, que também ele gostava de diversificar. Cruzamo-nos pelas variáveis.

Contudo, o surpreendente do fato: vê-lo a caminhar. Firmeza de postura. Erecto em sua senilidade sóbria. Vai determinado. Sereno. Impávido ancião curtindo sua saúde. Oitentão azeitado. Percebi: a consciência do que faz. O domínio do espaço. A mansidão determinada com que articula seu ritmo. Não vi titubeios. Vai reto. A cada esquina a rápida consulta. Não abusa. O ditado diz que são abusados nessa idade.

Médico. Sabe, decerto, de sua máquina. Que muito lidou com a máquina alheia. Conhece, claro, o corpo e mente desse seu tempo desvairado. (E pensar que Mário atribuiu desvairio à paulicéia de seu tempo.)

Caminha como um velho apressado premido pela hora. Transeunte anônimo, certamente, não o tem em conta. É mais um indo. Ou vindo. Todavia, os que o sabem, muitos, compreendem o velho médico e ex-prefeito em aeróbica diária.

Isso se deve a seu não-paramento. Vai vestido com roupa de serviço. Diferençam, tanto de quem cooper faz, quanto de quem ao trabalho vai, o chapéu e os tênis.

O chapéu e os tênis. Calça e camisa. Camisa quase sempre em mangas compridas. É que o médico sabe bem sobre o sol. Tanto mais sobre sua epiderme.

Saudei-o as vezes em que já nos encontramos. Se me reconhece não importa. Eu o reconheço. E saúdo sua digna pessoa. Boa. Irmão na fatura de um mundo homem. Difícil empreitada. Quando continuamos nos matando. Se nada, se absolutamente nada justifica que um homem mate outro homem. Imagine-se, então nos matarmos por nada. Por migalhas. Crônica torpeza que não nos deixa. Que nos imunda. Aos olhos meus. Aos olhos teus. Aos olhos deles. Aos olhos ateus. Aos olhos de Deus.

Passeei por sua administração. Prefeito de integridade insuspeita. Cavalheiro nato. A politicalha, certamente, não lhe fez bem. Entretanto, tampouco foi capaz de arruinar-lhe. Não o corrompeu. Bem com que a sua velhice se compraz. Daí, decerto, poder andar saudavelmente em paz. Livre dos párias. Que, por certo, deixaram-no menos médico. E como não deixam a ninguém. Não o deixaram ser melhor governante.

O médico ex-prefeito em suas caminhadas. Quando o vi a vez primeira, temi. Livre. Desvencilhado das pressões politiqueiras. Canalhas. Mas exposto ao tráfego bárbaro. Que ele é de caminhar pelas ruas.

Depois de mais vê-lo, tranqüilizei-me. Sua anciã lepidez. Sua sã vigilância. Não seria presa fácil desse amalucado trânsito. Sabia ainda bem cuidar-se.

É ainda senhor de si. E vai senhor consigo mesmo. Tanto que, sem hesitação, encostou-se a um canto de muro, numa dessas, e mijou espojadamente. Depois seguiu sua marcha saudável tranqüilamente.



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