Quem caminha sempre se encontra. Certa feita
me disse alguém. Os viciados pela malhação.
Sujeitos, alguns, de caminhos vários. Talvez para enganar.
A si mesmo. Da mesmice monótona do lugar único.
Ao corpo, para não moldarem-se os músculos ao
terreno.
Um dia, admirador, perguntou-me daquela monotonia
circular. Plana. Amortecente. Em estádios esportivos.
Retruquei. Havia opções. Alternâncias.
O bom praticante não se entrega, arrematei.
Então. Mais de algumas vezes o vi.
E o tenho visto. Pelos descaminhos freqüentados pelos
caminhadores. Estes os farejam. Aqueles os atraem. E acabamos
nos encontrando nos lugares mais diversos. Constatei, pois,
que também ele gostava de diversificar. Cruzamo-nos
pelas variáveis.
Contudo, o surpreendente do fato: vê-lo
a caminhar. Firmeza de postura. Erecto em sua senilidade sóbria.
Vai determinado. Sereno. Impávido ancião curtindo
sua saúde. Oitentão azeitado. Percebi: a consciência
do que faz. O domínio do espaço. A mansidão
determinada com que articula seu ritmo. Não vi titubeios.
Vai reto. A cada esquina a rápida consulta. Não
abusa. O ditado diz que são abusados nessa idade.
Médico. Sabe, decerto, de sua máquina.
Que muito lidou com a máquina alheia. Conhece, claro,
o corpo e mente desse seu tempo desvairado. (E pensar que
Mário atribuiu desvairio à paulicéia
de seu tempo.)
Caminha como um velho apressado premido pela
hora. Transeunte anônimo, certamente, não o tem
em conta. É mais um indo. Ou vindo. Todavia, os que
o sabem, muitos, compreendem o velho médico e ex-prefeito
em aeróbica diária.
Isso se deve a seu não-paramento. Vai
vestido com roupa de serviço. Diferençam, tanto
de quem cooper faz, quanto de quem ao trabalho vai, o chapéu
e os tênis.
O chapéu e os tênis. Calça
e camisa. Camisa quase sempre em mangas compridas. É
que o médico sabe bem sobre o sol. Tanto mais sobre
sua epiderme.
Saudei-o as vezes em que já nos encontramos.
Se me reconhece não importa. Eu o reconheço.
E saúdo sua digna pessoa. Boa. Irmão na fatura
de um mundo homem. Difícil empreitada. Quando continuamos
nos matando. Se nada, se absolutamente nada justifica que
um homem mate outro homem. Imagine-se, então nos matarmos
por nada. Por migalhas. Crônica torpeza que não
nos deixa. Que nos imunda. Aos olhos meus. Aos olhos teus.
Aos olhos deles. Aos olhos ateus. Aos olhos de Deus.
Passeei por sua administração.
Prefeito de integridade insuspeita. Cavalheiro nato. A politicalha,
certamente, não lhe fez bem. Entretanto, tampouco foi
capaz de arruinar-lhe. Não o corrompeu. Bem com que
a sua velhice se compraz. Daí, decerto, poder andar
saudavelmente em paz. Livre dos párias. Que, por certo,
deixaram-no menos médico. E como não deixam
a ninguém. Não o deixaram ser melhor governante.
O médico ex-prefeito em suas caminhadas.
Quando o vi a vez primeira, temi. Livre. Desvencilhado das
pressões politiqueiras. Canalhas. Mas exposto ao tráfego
bárbaro. Que ele é de caminhar pelas ruas.
Depois de mais vê-lo, tranqüilizei-me.
Sua anciã lepidez. Sua sã vigilância.
Não seria presa fácil desse amalucado trânsito.
Sabia ainda bem cuidar-se.
É ainda senhor de si. E vai senhor
consigo mesmo. Tanto que, sem hesitação, encostou-se
a um canto de muro, numa dessas, e mijou espojadamente. Depois
seguiu sua marcha saudável tranqüilamente.