Cabeleireiro boêmio. Embeleza os clientes
até às 23. Depois, a madrugada. O dia seguinte
começa às 11. Fisionomia marcada pelo sono tardio.
Preparativos. Tudo recendendo. Asseio. Assepsia. Observo-o
nesses preparativos. Toma-me a infância. Íamos
ao barbeiro. Seu Fraterno. Altíssimo. Desengonçado.
Hoje, não combinaria. Estrutura de homem para o machado.
A enxada. O caminhão de carga. Brutamontes. A máquina
manual de cortar na mão (nosso pavor). Parecia miniatura.
A máquina entranhava nossa cabeleira por aquelas manoplas.
Repuxava constantemente o cabelo. Mexíamos a cabeça
de dor. Seu vozeirão interceptava. Que não nos
mexêssemos! Um cubículo. A cadeira. Um espelho.
Um rústico aparadouro. A mesma máquina mascando
todos os cabelos. A mesma navalha (suspendíamos a respiração!)
fazendo as barbas e os pés dos cabelos e aparando as
costeletas. Do alto de Fraterno, o bafo da cachaça.
Dificilmente saíamos sem um talho. A que seu Fraterno
estancava limpando com um naco de papel à mão
(normalmente de pão) e passando álcool. Álcool
com álcool recendendo. Saíamos recobertos de
aparas de cabelo.
O cabeleireiro. Aligeirava-se. Cordialidades.
Pôs-me na cadeira. Aparamentou-me. As devidas proteções
das aparas de cabelo. Ia e vinha nos preparativos. Todos os
apetrechos descartáveis. Liberou-me as mãos
para a leitura. Pôs-me nelas a leitura escolhida. Sintonizou
a Globo. E nos entregamos a nós mesmos.
E foi numa olhadela. Algo incomum nas programações
daquele horário. Pareceu-me filme de guerra. Um enorme
edifício ardia. Nos entreolhamos. Súbito, um
avião choca-se com outro enorme edifício paralelo
àquele. Um avião de passageiro. O ícone
no canto da tevê "ao vivo". Apressou-se a
erguer o som. E tudo que acontecia foi o que se soube.
Ficamos pasmos. Instruíamo-nos um ao
outro. E assistíamos à catástrofe. A
realidade imitando a arte. A população novaiorquina
vivenciando seu dia de atores. O World Trade Center e o Pentágono,
o cenário real. Os contendores invisíveis. O
locutor falando de poderoso ataque contra Nova Iorque e Washington.
Contudo, onde o "inimigo"? Que é de seu estado
físico? Onde suas armas? Sua frota? Sua armada? Sua
artilharia? Aviões de passageiros chocaram-se com os
prédios. Um desastre?
Não era. Seqüestrados. E os inimigos
novaiorquinos, suicidas. Mas levaram à morte consigo
passageiros não-suicidas. Passageiros, decerto, cheios
de vida. Uma guerra insana. Aprendi que guerreiro era um bravo.
Agora, assistia a conceito novo. Guerreiro contemporâneo
é um bárbaro. A guerrilha renovada. Nela, o
suicida é a grande arma. A arma viva. Explosiva. Capaz
de qualquer lugar. Sem que nunca se saiba.
Cabeleireiro e eu. Todo o tempo do corte ante
a imagem do terror. E fazendo conjecturas. Em casa encarei-me
mais à vontade e demorado. Horrível. Fiquei
com a sensação de que havia acabado de sair
da cadeira de barbeiro do seu Fraterno.