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Guerrilha
Data 21/set/2001

Cabeleireiro boêmio. Embeleza os clientes até às 23. Depois, a madrugada. O dia seguinte começa às 11. Fisionomia marcada pelo sono tardio. Preparativos. Tudo recendendo. Asseio. Assepsia. Observo-o nesses preparativos. Toma-me a infância. Íamos ao barbeiro. Seu Fraterno. Altíssimo. Desengonçado. Hoje, não combinaria. Estrutura de homem para o machado. A enxada. O caminhão de carga. Brutamontes. A máquina manual de cortar na mão (nosso pavor). Parecia miniatura. A máquina entranhava nossa cabeleira por aquelas manoplas. Repuxava constantemente o cabelo. Mexíamos a cabeça de dor. Seu vozeirão interceptava. Que não nos mexêssemos! Um cubículo. A cadeira. Um espelho. Um rústico aparadouro. A mesma máquina mascando todos os cabelos. A mesma navalha (suspendíamos a respiração!) fazendo as barbas e os pés dos cabelos e aparando as costeletas. Do alto de Fraterno, o bafo da cachaça. Dificilmente saíamos sem um talho. A que seu Fraterno estancava limpando com um naco de papel à mão (normalmente de pão) e passando álcool. Álcool com álcool recendendo. Saíamos recobertos de aparas de cabelo.

O cabeleireiro. Aligeirava-se. Cordialidades. Pôs-me na cadeira. Aparamentou-me. As devidas proteções das aparas de cabelo. Ia e vinha nos preparativos. Todos os apetrechos descartáveis. Liberou-me as mãos para a leitura. Pôs-me nelas a leitura escolhida. Sintonizou a Globo. E nos entregamos a nós mesmos.

E foi numa olhadela. Algo incomum nas programações daquele horário. Pareceu-me filme de guerra. Um enorme edifício ardia. Nos entreolhamos. Súbito, um avião choca-se com outro enorme edifício paralelo àquele. Um avião de passageiro. O ícone no canto da tevê "ao vivo". Apressou-se a erguer o som. E tudo que acontecia foi o que se soube.

Ficamos pasmos. Instruíamo-nos um ao outro. E assistíamos à catástrofe. A realidade imitando a arte. A população novaiorquina vivenciando seu dia de atores. O World Trade Center e o Pentágono, o cenário real. Os contendores invisíveis. O locutor falando de poderoso ataque contra Nova Iorque e Washington. Contudo, onde o "inimigo"? Que é de seu estado físico? Onde suas armas? Sua frota? Sua armada? Sua artilharia? Aviões de passageiros chocaram-se com os prédios. Um desastre?

Não era. Seqüestrados. E os inimigos novaiorquinos, suicidas. Mas levaram à morte consigo passageiros não-suicidas. Passageiros, decerto, cheios de vida. Uma guerra insana. Aprendi que guerreiro era um bravo. Agora, assistia a conceito novo. Guerreiro contemporâneo é um bárbaro. A guerrilha renovada. Nela, o suicida é a grande arma. A arma viva. Explosiva. Capaz de qualquer lugar. Sem que nunca se saiba.

Cabeleireiro e eu. Todo o tempo do corte ante a imagem do terror. E fazendo conjecturas. Em casa encarei-me mais à vontade e demorado. Horrível. Fiquei com a sensação de que havia acabado de sair da cadeira de barbeiro do seu Fraterno.



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