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Reconfortos
Data 05/ago/2001

Mergulhado no nada. Quando o fato. A notícia. O acaso. O imprevisto. Assomam. Interceptam. A não nos deixar. Urtigas na alma. Como o cão da rua. Como o mendigo na rua. Como os pedintes. Como certos catadores de papel. Como homens, mulheres, crianças, animais e pássaros chafurdando os lixões. Tormenta em sangue reagente. Em coração fraquejante. À dor advém a divagação. Não em mar de rosas. A tormenta permanece urtigas. Mas a alma adeja. Como se o movimento mental resulte mitigações. E a paz, o sossego rondam em socorro. Os sentidos se abrem ao que propõem. Se não: "Não, meu coração não é maior que o mundo./É muito menor./Nele não cabem nem as minhas dores."

O olhar, refeito de seu absenteísmo, circunvaga. À toa. À cata, talvez, de sofreios. A textura brilhosa de rosa encarnada. A mimosura das florzinhas coloridas compondo os cachos mais delicados dos cambarás. A germinação silenciosa dos frutos nos pomares. As tonalidades do colorido dos frutos maduros. A profusão dos cachos de coco com sua água sanitária guarnecida. A acidez asséptica dos limões galegos tonalizando de amarelo seu verde bom. Quando não, as alvas florzinhas polinadas, polinadas pelas abelhas europas. As jabuticabas verdes, quando verdes. Negras, quando maduras. Feito bolinhas de gude negras presas aos galhos. E a elas preferem as abelhas negras. As irapuãs. Quando não, suas florinhas antipétalas. Brancuras feitas em flocos esfarinhantes. Ou a flor do caju com sua corola abotoada em lilás. Donde vai surdindo o agudo fruto guarda-chuva que nos dá a água vitaminada mais C. Ou então a fineza das florinhas emargaridadas em seu lilás mais lindo da acerola. Donde vai surdindo fruto mais bonito com trejeitos de pitanga. Ou então a profusão dos encorpados cachos das flores da cássia colossal de pingentes abotoados de amarelo. Ou as primaveras esparramadas com seus espinhos pelo muro. Cipoal verdejante insinuando-se por todos os cantos. Tentáculos longos. Rígidos. Tenros. Todo o muro por extenso. De modo denso. Tenso. Contudo a essa fibratura rígida e áspera, valem as flores. Flores da primavera. Brancas. Lilases. Vermelhas. Alaranjadas. Amarelas. Bonitezas fazendo esquecer os espinhos. Também elas profusamente se propagam. São como brincos de galos. São como brincos de galinhas d'angola. E os beija-flores por tudo passeiam. E mais os outros pássaros assíduos do quintal. Sem contar o sabiá.

Ah! o sabiá. Há tempos não vinha por cá. Cantorias de hipnotizar. Então, dias desses, o fato. Acordou-me o trinado do sabiá. Era ele de volta. Eu sabia. Tornara. Por onde andara, não tinha importância. Reavê-lo. Novamente o convívio com seus trinados. Meu sabiá. Reocupando seu posto de músico imprescindível à orquestra do meu quintal. Danado. Desertor. Dado a sumiços. Entanto, acaba sempre tornando. Suas ausências, todavia, doem. Ele faz muita falta, quando falta. Filho pródigo. Amor bandido. Inda bem. Tenho os meus arrelientos eternos pardais. Os meus constantes, conquanto arredios, bem-te-vis. Emplumados bem-te-vis. Estridentes. Insolentes para a gana de meu pastor. Doido por estraçalhá-los. A todos, aliás. Até os pardais. Pois que sempre se aventuram a bulir em sua ração. Deve ser demais. Fica possesso. Golpeando os ares.

Esses meus animais. Persistir. Manter assim quintais. Certo é que a dor não estirpa. Tanto que Drummond não cessa seu sussurro: vale como rima. Não é solução. E eu, teimoso, lhe retruco: afinal, Poeta, o que é solução? A rima ao menos mitiga. Reconforta. Recompõe. E seu riso monalisa a compor com este meu particular paraíso para sempre fito em mim.



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