Mergulhado no nada. Quando o fato. A notícia.
O acaso. O imprevisto. Assomam. Interceptam. A não
nos deixar. Urtigas na alma. Como o cão da rua. Como
o mendigo na rua. Como os pedintes. Como certos catadores
de papel. Como homens, mulheres, crianças, animais
e pássaros chafurdando os lixões. Tormenta em
sangue reagente. Em coração fraquejante. À
dor advém a divagação. Não em
mar de rosas. A tormenta permanece urtigas. Mas a alma adeja.
Como se o movimento mental resulte mitigações.
E a paz, o sossego rondam em socorro. Os sentidos se abrem
ao que propõem. Se não: "Não, meu
coração não é maior que o mundo./É
muito menor./Nele não cabem nem as minhas dores."
O olhar, refeito de seu absenteísmo,
circunvaga. À toa. À cata, talvez, de sofreios.
A textura brilhosa de rosa encarnada. A mimosura das florzinhas
coloridas compondo os cachos mais delicados dos cambarás.
A germinação silenciosa dos frutos nos pomares.
As tonalidades do colorido dos frutos maduros. A profusão
dos cachos de coco com sua água sanitária guarnecida.
A acidez asséptica dos limões galegos tonalizando
de amarelo seu verde bom. Quando não, as alvas florzinhas
polinadas, polinadas pelas abelhas europas. As jabuticabas
verdes, quando verdes. Negras, quando maduras. Feito bolinhas
de gude negras presas aos galhos. E a elas preferem as abelhas
negras. As irapuãs. Quando não, suas florinhas
antipétalas. Brancuras feitas em flocos esfarinhantes.
Ou a flor do caju com sua corola abotoada em lilás.
Donde vai surdindo o agudo fruto guarda-chuva que nos dá
a água vitaminada mais C. Ou então a fineza
das florinhas emargaridadas em seu lilás mais lindo
da acerola. Donde vai surdindo fruto mais bonito com trejeitos
de pitanga. Ou então a profusão dos encorpados
cachos das flores da cássia colossal de pingentes abotoados
de amarelo. Ou as primaveras esparramadas com seus espinhos
pelo muro. Cipoal verdejante insinuando-se por todos os cantos.
Tentáculos longos. Rígidos. Tenros. Todo o muro
por extenso. De modo denso. Tenso. Contudo a essa fibratura
rígida e áspera, valem as flores. Flores da
primavera. Brancas. Lilases. Vermelhas. Alaranjadas. Amarelas.
Bonitezas fazendo esquecer os espinhos. Também elas
profusamente se propagam. São como brincos de galos.
São como brincos de galinhas d'angola. E os beija-flores
por tudo passeiam. E mais os outros pássaros assíduos
do quintal. Sem contar o sabiá.
Ah! o sabiá. Há tempos não
vinha por cá. Cantorias de hipnotizar. Então,
dias desses, o fato. Acordou-me o trinado do sabiá.
Era ele de volta. Eu sabia. Tornara. Por onde andara, não
tinha importância. Reavê-lo. Novamente o convívio
com seus trinados. Meu sabiá. Reocupando seu posto
de músico imprescindível à orquestra
do meu quintal. Danado. Desertor. Dado a sumiços. Entanto,
acaba sempre tornando. Suas ausências, todavia, doem.
Ele faz muita falta, quando falta. Filho pródigo. Amor
bandido. Inda bem. Tenho os meus arrelientos eternos pardais.
Os meus constantes, conquanto arredios, bem-te-vis. Emplumados
bem-te-vis. Estridentes. Insolentes para a gana de meu pastor.
Doido por estraçalhá-los. A todos, aliás.
Até os pardais. Pois que sempre se aventuram a bulir
em sua ração. Deve ser demais. Fica possesso.
Golpeando os ares.
Esses meus animais. Persistir. Manter assim
quintais. Certo é que a dor não estirpa. Tanto
que Drummond não cessa seu sussurro: vale como rima.
Não é solução. E eu, teimoso,
lhe retruco: afinal, Poeta, o que é solução?
A rima ao menos mitiga. Reconforta. Recompõe. E seu
riso monalisa a compor com este meu particular paraíso
para sempre fito em mim.