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As desmesmices da vida
Data 30/jul/2001

Os desconcertos deste mundo. Os rumos desaprumados. Impossível desconsiderá-los. Decerto são mesmo a desmesmice salvadora. A permanente reinvenção da vida. Vida tão antiga. Todavia, nunca repetida. Conquanto assim nos iluda.

Quando o cotidiano parece entorpecimento, o desvelo. Quando a ordem dorme.

Quando a verdade estabelece a ordem e progresso. Quando a ciência enuncia as normas. Quando a medicina denomina o bem e o mal. Quando as religiões nomeiam os diabos. Quando a invencibilidade etiqueta os seus pódios. Quando a fartura sustenta a prodigalidade. Quando os milagres parecem esgotados. Quando o totalitarismo estaqueou todo o território. Quando a paz irmanou lobos e ovelhas. Quando os ianomamis e posseiros fumaram em paz o cachimbo. Quando a televisão soberaneia com sua magia sobranceira.

Então, quando tudo assim. Raia o desmantelo.

O que absoluto era, fica muito relativo. Às vezes um estupidificante equívoco. Então, o câncer, que nada mais consente. Os cânones abalados. A áurea da arte dessacralizada. O kitsch questionado. O mass mídia apodrecendo. Os populistas se rendendo. O infarto ocasionando irreparável estrago.A paraplegia imobilizando saradas agilidades. O assassinato infelicitando encantos. Projetos. Os abandonos dilacerando. O poeta pródigo emudecido. O compositor agraciado incapaz de uma nota. O intransponível ultrapassado. O infecundo procriando à larga. O gênio completamente enlouquecido. O pinel aclamado gênio. As surpreendentes incomensuralidades das ilhargas do universo. As imponderáveis galáxias.

Então, tornam as supostas mazelas extirpadas. A malária. A dengue. A tuberculose. A lepra. A febre amarela. A diarréia. Incabíveis à lógica numa civilização ciberinformática. Quando a internet desbanca novamente a estirpe gutenberg. Mais que nova roupagem: miliuma novas linguagens. A máquina de escrever levada ao silêncio. Peça de museu compondo história. História de uma vida humana tão contraditória. Inovadora. Conservadora. Retrógrada. Mutante. Pois que atinge a era da ultraletragem com fortes chagas de analfabetismo. A era da produção miraculosa em grande escala carregada de miséria e fome.

Então, quando tudo parece assentado ao chão da mesmice, o desarranjo. A desmesmice. É a vida. Absurda. Maravilhosa.



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