Os desconcertos deste mundo. Os rumos desaprumados.
Impossível desconsiderá-los. Decerto são
mesmo a desmesmice salvadora. A permanente reinvenção
da vida. Vida tão antiga. Todavia, nunca repetida.
Conquanto assim nos iluda.
Quando o cotidiano parece entorpecimento,
o desvelo. Quando a ordem dorme.
Quando a verdade estabelece a ordem e progresso.
Quando a ciência enuncia as normas. Quando a medicina
denomina o bem e o mal. Quando as religiões nomeiam
os diabos. Quando a invencibilidade etiqueta os seus pódios.
Quando a fartura sustenta a prodigalidade. Quando os milagres
parecem esgotados. Quando o totalitarismo estaqueou todo o
território. Quando a paz irmanou lobos e ovelhas. Quando
os ianomamis e posseiros fumaram em paz o cachimbo. Quando
a televisão soberaneia com sua magia sobranceira.
Então, quando tudo assim. Raia o desmantelo.
O que absoluto era, fica muito relativo. Às
vezes um estupidificante equívoco. Então, o
câncer, que nada mais consente. Os cânones abalados.
A áurea da arte dessacralizada. O kitsch questionado.
O mass mídia apodrecendo. Os populistas se rendendo.
O infarto ocasionando irreparável estrago.A paraplegia
imobilizando saradas agilidades. O assassinato infelicitando
encantos. Projetos. Os abandonos dilacerando. O poeta pródigo
emudecido. O compositor agraciado incapaz de uma nota. O intransponível
ultrapassado. O infecundo procriando à larga. O gênio
completamente enlouquecido. O pinel aclamado gênio.
As surpreendentes incomensuralidades das ilhargas do universo.
As imponderáveis galáxias.
Então, tornam as supostas mazelas extirpadas.
A malária. A dengue. A tuberculose. A lepra. A febre
amarela. A diarréia. Incabíveis à lógica
numa civilização ciberinformática. Quando
a internet desbanca novamente a estirpe gutenberg. Mais que
nova roupagem: miliuma novas linguagens. A máquina
de escrever levada ao silêncio. Peça de museu
compondo história. História de uma vida humana
tão contraditória. Inovadora. Conservadora.
Retrógrada. Mutante. Pois que atinge a era da ultraletragem
com fortes chagas de analfabetismo. A era da produção
miraculosa em grande escala carregada de miséria e
fome.
Então, quando tudo parece assentado
ao chão da mesmice, o desarranjo. A desmesmice. É
a vida. Absurda. Maravilhosa.