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Desígnio
Data 13/jul/2001

Dizia que muito cedo lhe viera o sofrimento.Mal se percebia como gente. Pessoa. Ente. Quem capaz de acocorar-se num canto. Cruzar os braços abarcando os joelhos. Sobre eles pousar o queixo. Os olhos fixando o nada. A cabeça navegando pelo espaço da memória. A alma confrangendo-se. Alegrando-se às vezes. Sonhando. Como sonha o ambicionado. O abandonado. Têm no sonho seu construtor dos indecifráveis possíveis.

Aos pobres, os sonhos. Seu remédio. De fácil acesso. Custo zero. Verdade que à doença não cura. Mas evita a entrega. Revitaliza a esperança. Não desenraíza, é certo, a pobreza. Contudo, aviva a opção pela resistência. A expressão espontânea ajuíza isso: "pobre vive de teimoso". Viver é nossa meta. Nosso destino. Viver. Ninguém tem o direito de pedir para nascer. Ou não nascer. Ninguém tem o direito de pedir como, onde, quando nascer. Ninguém tem o direito de pedir por quem quer nascer. Então, é tratar de tocar a vida. Construir-se como uma pessoa. Se aqui estamos, é preciso dizer a nós mesmos e ao mundo por que viemos. Temos um juízo. A força física. É pô-los a serviço da vida. Da nossa vida. Da vida dos outros. Isso de alguém ter vida mais rica que a dos outros é mesmo desconfortável. Não sei. Acho que o começo de tudo já foi assim. Deus não se meteu nisso, não. O homem foi fazendo esse seu lugar. De modo que riqueza e pobreza são coisa dos homens mesmo. Eu vinguei no meio da pobreza. Fui quebrar a cara. Adiantava ficar choramingando o cruel destino? Olhando a abundância dos ricos? Cobiçando a vida dos ricos? Sentindo-se injustiçada, maldizendo a vida? Não. Fui me virar. Que havia roubo de toda ordem. Que o ritmo da vida é gente engambelando gente. Que a aparência, a máscara é a grande verdade humana. Que moral, ética, os valores estão a serviço de interesses. Tudo isso fui aprendendo, menina. Aprendendo enquanto apanhava. Apanhava do sol nas roças de café. Nas roças de algodão. Levantando muito, muito antes dos triscares da aurora. Deixar comida pronta pros filhos. Deixar recomendações. Irem pra escola. Limparem a casa. Lavarem as roupas pequenas. À noite, conferia tudo. Curtir doença não é direito de quem vive assim. Implica não comer. Aumentar as contas no armazém. Na farmácia. De modo que gripe era bobagem. A febre a gente afugentava na lavra da roça.

Veio o tempo em que a roça me rejeitou. Fui lavar roupa pros outros. Plantar horta. Que pelo menos quintal a gente tinha pra isso. Já nesse tempo vocês estavam aí, não é? E isso parece o diabo. Riqueza gera riqueza. Pobreza gera pobreza. Então seus pais entraram também na legião dos pobres. Pouquinho menos pobres, é certo.

Foi bom, todavia. Acho que fui guerreira. Ninguém é ladrão. São trabalhadores. Pessoas gente boa. Vocês doutores. Professores. Deus! Acho que a riqueza começou a bater na nossa porta. Não acha?

A Expressão impassível. Serena. Fisionomia de quem em paz descansa consigo mesma. Missão cumprida. Mesmo nessa hora, sua expressão é de paz. De confiança. Mulher de fé inabalável. Fé na vida. Fé em Deus. Fé nos homens. Aos quais pertenciam seus filhos. Seus netos.

Fixa nela, ia assim ouvindo o ressôo daquela sua fala quase costumeira. Não sabia ao certo o que silenciosamente lhe responder. Preferia, felicitada, continuar ouvindo-a. Construíra, sim, a nação-família que a eles cabia tocar em frente. Como ela costumar dizer. Talvez não a riqueza, dona Mariquinha. Que consigo mesma aprendemos a menosprezar. Mas o respeito como sujeitos dignos e esforçados em competência. Que você semeou. Cultivou. Ensinou. Por isso, descanse sempre em paz, dona Mariquinha.



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