Dizia que muito cedo lhe viera o sofrimento.Mal
se percebia como gente. Pessoa. Ente. Quem capaz de acocorar-se
num canto. Cruzar os braços abarcando os joelhos. Sobre
eles pousar o queixo. Os olhos fixando o nada. A cabeça
navegando pelo espaço da memória. A alma confrangendo-se.
Alegrando-se às vezes. Sonhando. Como sonha o ambicionado.
O abandonado. Têm no sonho seu construtor dos indecifráveis
possíveis.
Aos pobres, os sonhos. Seu remédio.
De fácil acesso. Custo zero. Verdade que à doença
não cura. Mas evita a entrega. Revitaliza a esperança.
Não desenraíza, é certo, a pobreza. Contudo,
aviva a opção pela resistência. A expressão
espontânea ajuíza isso: "pobre vive de teimoso".
Viver é nossa meta. Nosso destino. Viver. Ninguém
tem o direito de pedir para nascer. Ou não nascer.
Ninguém tem o direito de pedir como, onde, quando nascer.
Ninguém tem o direito de pedir por quem quer nascer.
Então, é tratar de tocar a vida. Construir-se
como uma pessoa. Se aqui estamos, é preciso dizer a
nós mesmos e ao mundo por que viemos. Temos um juízo.
A força física. É pô-los a serviço
da vida. Da nossa vida. Da vida dos outros. Isso de alguém
ter vida mais rica que a dos outros é mesmo desconfortável.
Não sei. Acho que o começo de tudo já
foi assim. Deus não se meteu nisso, não. O homem
foi fazendo esse seu lugar. De modo que riqueza e pobreza
são coisa dos homens mesmo. Eu vinguei no meio da pobreza.
Fui quebrar a cara. Adiantava ficar choramingando o cruel
destino? Olhando a abundância dos ricos? Cobiçando
a vida dos ricos? Sentindo-se injustiçada, maldizendo
a vida? Não. Fui me virar. Que havia roubo de toda
ordem. Que o ritmo da vida é gente engambelando gente.
Que a aparência, a máscara é a grande
verdade humana. Que moral, ética, os valores estão
a serviço de interesses. Tudo isso fui aprendendo,
menina. Aprendendo enquanto apanhava. Apanhava do sol nas
roças de café. Nas roças de algodão.
Levantando muito, muito antes dos triscares da aurora. Deixar
comida pronta pros filhos. Deixar recomendações.
Irem pra escola. Limparem a casa. Lavarem as roupas pequenas.
À noite, conferia tudo. Curtir doença não
é direito de quem vive assim. Implica não comer.
Aumentar as contas no armazém. Na farmácia.
De modo que gripe era bobagem. A febre a gente afugentava
na lavra da roça.
Veio o tempo em que a roça me rejeitou.
Fui lavar roupa pros outros. Plantar horta. Que pelo menos
quintal a gente tinha pra isso. Já nesse tempo vocês
estavam aí, não é? E isso parece o diabo.
Riqueza gera riqueza. Pobreza gera pobreza. Então seus
pais entraram também na legião dos pobres. Pouquinho
menos pobres, é certo.
Foi bom, todavia. Acho que fui guerreira.
Ninguém é ladrão. São trabalhadores.
Pessoas gente boa. Vocês doutores. Professores. Deus!
Acho que a riqueza começou a bater na nossa porta.
Não acha?
A Expressão impassível. Serena.
Fisionomia de quem em paz descansa consigo mesma. Missão
cumprida. Mesmo nessa hora, sua expressão é
de paz. De confiança. Mulher de fé inabalável.
Fé na vida. Fé em Deus. Fé nos homens.
Aos quais pertenciam seus filhos. Seus netos.
Fixa nela, ia assim ouvindo o ressôo
daquela sua fala quase costumeira. Não sabia ao certo
o que silenciosamente lhe responder. Preferia, felicitada,
continuar ouvindo-a. Construíra, sim, a nação-família
que a eles cabia tocar em frente. Como ela costumar dizer.
Talvez não a riqueza, dona Mariquinha. Que consigo
mesma aprendemos a menosprezar. Mas o respeito como sujeitos
dignos e esforçados em competência. Que você
semeou. Cultivou. Ensinou. Por isso, descanse sempre em paz,
dona Mariquinha.