Você!? Quase inecreditável. Já
havia desistido. Palavra. Por que torna? Não dissera
ter agido indubitavelmente? Cri sempre em suas decisões.
Não me diga ter sido por arrependimento? Ora. Vamos,
a casa, tão sua conhecida. Sem maiores explicações,
caríssimo senhor! Vá entrando. A velha casa
o acolhe. Seja pelo que quer que fora, tenha um bom regresso.
Não. Verdadeiramente, não me move a ansiedade
pela causa do regresso. São indagações
intempestivas. Frente ao seu não menos intempestivo
retorno. Vez que também intempestiva fora sua ida.
Vá se reinstalando. Vá. Pois vejo que o trouxe
essa decisão. Retome seu lugar. Ele lá está.
Fosse eu teimosa e intempestiva igual, pouco já lá
haveria de seus remanescentes pertences. Houvera pensado em
distribuí-los. Nada de coisas materiais armazenadas.
Recordações melhores e eficazes são as
da memória. Objetos viram fetiche. Depois deixei passar
mais. As atribulações da sobrevivência
puseram no esquecimento provisório a idéia.
Mas outro dia, porque você me veio, a idéia reavivou-se.
Foram os jornais do dia. Me trouxeram marejo de impotência
e raiva. Algumas fotos e textos arrasadores. A morte instituída
pela fome no Nordeste. Crianças em estado de degenerescência
irreversível. Morrendo à míngua. Com
perdão do trocadilho, nem um tiquinho de mingau para
impedir aquele genocídio!? Dor e ódio. Bandidos!
Vários banqueiros salvos da falência. Altíssimas
quantias do dinheiro público para banqueiros não
falirem. E homens, e crianças falecendo sem que dinheiro
público algum impeça. Gado, então, nem
se fala! Então, você me veio. A sua imagem de
apoplético furibundo ante essas tragédias. Tudo
foi tão envolvente, que eu me vi na cena imaginária.
Pedia-lhe, como sempre, que ficasse calmo. Que não
pagava a pena o risco de um acidente cardiovascular. Cerebral.
Você, no entanto, como sempre aqui também o faz,
somente resfolegou depois de todos os vitupérios que
pôde expelir. Finda a possessão arreou desabadamente
em sua cadeira Ela também entrara no rol dos seus pertences
doáveis, ouviu!? Eu despertei do torpor. Tornei ao
genocídio anunciado. Bandidos! Bandidos! Bandidos!
Certamente estava ainda com respingos de sua fúria.
Também eu recostei à poltrona para resfolegar.
Aí recuei novamente. Essa inter-relação,
o trágico da notícia-você-sua ira, me
fez abster ainda da idéia. Canalhas! E fui à
geladeira. Tudo entulhado. Nem um outro refrigerador. O hábito
de congelar para conservar tendo que ser desfeito. Mais outra
dos bandidos-apagões. Apanhei uma cerveja. (O abastecimento
é com a marca de sua preferência. Seu danado!)
Porção de azeitona. Porção de
queijo-prato. Porção de salaminho milano codimentado.
Seus adoráveis tira-gostos.
Hoje tornei a repetir tudo. Jornal reaberto.
Leitura retomada. Aí, a campainha: você! Certamente,
ávido. Sequioso. Faminto. Veio conferir o tamanho do
meu amor. Não é? Pois confira, senhor teimoso.
Vá até seu quarto. Dê pela falta de algum
de seus pertences, se for capaz! Depois, venha à cozinha,
seu mal acostumado. Sua cerveja estará posta. Seu salame.
Seu queijo. Suas azeitonas verdes. (Velho teimoso. E... adorável!)
Se viva, mamãe me repetiria que eu o mimo em demasia.
Seu mal agradecido! E confesso mais. Minha intuição
dizia que você não suportaria passar seu aniversário
sem mim. Por isso, seu bolo predileto está também
na geladeira, seu velho ranzinza! Vá! Vá logo.
Estarei na cozinha esperando. Venha comigo agradecer e celebrar.
Seu danado! Afinal, fazer noventa é uma dádiva.