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Amorosidade
Data 25/jun/2001

Você!? Quase inecreditável. Já havia desistido. Palavra. Por que torna? Não dissera ter agido indubitavelmente? Cri sempre em suas decisões. Não me diga ter sido por arrependimento? Ora. Vamos, a casa, tão sua conhecida. Sem maiores explicações, caríssimo senhor! Vá entrando. A velha casa o acolhe. Seja pelo que quer que fora, tenha um bom regresso. Não. Verdadeiramente, não me move a ansiedade pela causa do regresso. São indagações intempestivas. Frente ao seu não menos intempestivo retorno. Vez que também intempestiva fora sua ida. Vá se reinstalando. Vá. Pois vejo que o trouxe essa decisão. Retome seu lugar. Ele lá está. Fosse eu teimosa e intempestiva igual, pouco já lá haveria de seus remanescentes pertences. Houvera pensado em distribuí-los. Nada de coisas materiais armazenadas. Recordações melhores e eficazes são as da memória. Objetos viram fetiche. Depois deixei passar mais. As atribulações da sobrevivência puseram no esquecimento provisório a idéia. Mas outro dia, porque você me veio, a idéia reavivou-se. Foram os jornais do dia. Me trouxeram marejo de impotência e raiva. Algumas fotos e textos arrasadores. A morte instituída pela fome no Nordeste. Crianças em estado de degenerescência irreversível. Morrendo à míngua. Com perdão do trocadilho, nem um tiquinho de mingau para impedir aquele genocídio!? Dor e ódio. Bandidos! Vários banqueiros salvos da falência. Altíssimas quantias do dinheiro público para banqueiros não falirem. E homens, e crianças falecendo sem que dinheiro público algum impeça. Gado, então, nem se fala! Então, você me veio. A sua imagem de apoplético furibundo ante essas tragédias. Tudo foi tão envolvente, que eu me vi na cena imaginária. Pedia-lhe, como sempre, que ficasse calmo. Que não pagava a pena o risco de um acidente cardiovascular. Cerebral. Você, no entanto, como sempre aqui também o faz, somente resfolegou depois de todos os vitupérios que pôde expelir. Finda a possessão arreou desabadamente em sua cadeira Ela também entrara no rol dos seus pertences doáveis, ouviu!? Eu despertei do torpor. Tornei ao genocídio anunciado. Bandidos! Bandidos! Bandidos! Certamente estava ainda com respingos de sua fúria. Também eu recostei à poltrona para resfolegar. Aí recuei novamente. Essa inter-relação, o trágico da notícia-você-sua ira, me fez abster ainda da idéia. Canalhas! E fui à geladeira. Tudo entulhado. Nem um outro refrigerador. O hábito de congelar para conservar tendo que ser desfeito. Mais outra dos bandidos-apagões. Apanhei uma cerveja. (O abastecimento é com a marca de sua preferência. Seu danado!) Porção de azeitona. Porção de queijo-prato. Porção de salaminho milano codimentado. Seus adoráveis tira-gostos.

Hoje tornei a repetir tudo. Jornal reaberto. Leitura retomada. Aí, a campainha: você! Certamente, ávido. Sequioso. Faminto. Veio conferir o tamanho do meu amor. Não é? Pois confira, senhor teimoso. Vá até seu quarto. Dê pela falta de algum de seus pertences, se for capaz! Depois, venha à cozinha, seu mal acostumado. Sua cerveja estará posta. Seu salame. Seu queijo. Suas azeitonas verdes. (Velho teimoso. E... adorável!) Se viva, mamãe me repetiria que eu o mimo em demasia. Seu mal agradecido! E confesso mais. Minha intuição dizia que você não suportaria passar seu aniversário sem mim. Por isso, seu bolo predileto está também na geladeira, seu velho ranzinza! Vá! Vá logo. Estarei na cozinha esperando. Venha comigo agradecer e celebrar. Seu danado! Afinal, fazer noventa é uma dádiva.



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