Home
|
Conheça Tito Damazo
|
Textos
|
Contato
|



Esperanceiro
Data 15/jun/2001

Então o dia será chegado. Seremos completos.Teremos nos livrado deste cruel destino. Limpos de quaisquer vestígios de insensatez. De toda ordem de perversão. Perversão comporá o glossário dos signos fossilizados. Nossa atávica condição de predadores finda. Ah! deverá ser bom. O tempo de nós demônios posto em museu. Todos indo visitar o nosso passado. Aprendendo com a lembrança de quando catastrofumanos fôramos. Para nunca mais esquecer. Conservados em imagem. Em som. Em palavras. A era trévoa de nós homens. A consciência em exercício de permanente depuração. O ciclo evolutivo de nós mesmos visto pelos nossos próprios olhos. E quanto mais nos chocarmos melhor. Quanto mais chorarmos, mais depurados. Que o horror de nossos atos nos enterneça. Que nossa comoção nos cresça. Nossa inteligência em plena evolução de desdemonização. Assim, até que a eternidade nos chegue. A nós homens feitos de carne de osso. Eternizar-nos e reintegrar o paraíso. Não o éden onde nada é tudo. O paraíso de nós mesmos consiste em nossa desdemonização. Que o mal nos ronde. Sim, todavia, que o bem o inofencive sempre. Tomar nossa razão e distribuí-la como o pão da vida. E que a ternura seja o sal de nossa proteção. Corroer o inferno que corre em nossas veias. Extirpar de nosso sangue o veneno. Veneno que move mãos mais, muito mais, assassinas que criadoras. Dar ao cérebro nossa superior escola de puro e eterno amar. Não que o ódio desapareça. Permaneça, porém, a serviço do viço daquele. Que o perdão perdure como meta sempre inatingível. Inatingível, sim, vez que faremos sempre por dele não precisar. A agonia ficará restrita à inexorável separação que a morte, afinal, sempre há de nos dar. Nada de monotonia. Que a comédia não se esvaia. Que a tragédia não se esvaia. Contudo, façam-se definitivamente exclusiva ficção. Entretenimento e exercício. Haveremos de comer o pão que a mãe Terra sempre saberá nos dar. Beberemos a água que os rios sempre estarão a nos ofertar. Ah! há de ser muito bom! Aos nossos irmãos animais, sem restrição, acolheremos com unção e piedade. Tão pobres. Tão dependentes. Hão de estar a salvo. Sem exceção. O gado morrerá de velhice. Os cavalos pastarão por todo o sempre o bom capim. Nada de servidão. As carroças completamente abolidas. Nada de carne como comida. Não abatê-los para a nossa fome. Mas sim, mais tê-los para o reconforto de nossa alma. Ver a beleza deles. A ternura dos olhos deles. Eis que teremos o paraíso Terra atingido. Nada de nos escravizarmos. Cada homem será senhor de sua dignidade. Sem que, para isso, nenhuma interferência ocorra na dignidade do outro. Decerto que esse estado vem vindo cada vez mais. É a nossa engenhosidade seu instaurador. Avança inexoravelmente. Seremos nosso próprio engenho. Não mais oprimiremos. Não mais escravizaremos. Não mais mataremos. A nossa técnica nos redimirá.

Então, O poeta verá cumprir sua previsão: "Aurora,/ entretanto eu te diviso, ainda tímida,/ inexperiente das luzes que vais acender/ e dos bens que repartirás com todos os homens./Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,/adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna."



Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003, Poetagem - www.poetagem.com.br

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético