Então o dia será chegado. Seremos
completos.Teremos nos livrado deste cruel destino. Limpos
de quaisquer vestígios de insensatez. De toda ordem
de perversão. Perversão comporá o glossário
dos signos fossilizados. Nossa atávica condição
de predadores finda. Ah! deverá ser bom. O tempo de
nós demônios posto em museu. Todos indo visitar
o nosso passado. Aprendendo com a lembrança de quando
catastrofumanos fôramos. Para nunca mais esquecer. Conservados
em imagem. Em som. Em palavras. A era trévoa de nós
homens. A consciência em exercício de permanente
depuração. O ciclo evolutivo de nós mesmos
visto pelos nossos próprios olhos. E quanto mais nos
chocarmos melhor. Quanto mais chorarmos, mais depurados. Que
o horror de nossos atos nos enterneça. Que nossa comoção
nos cresça. Nossa inteligência em plena evolução
de desdemonização. Assim, até que a eternidade
nos chegue. A nós homens feitos de carne de osso. Eternizar-nos
e reintegrar o paraíso. Não o éden onde
nada é tudo. O paraíso de nós mesmos
consiste em nossa desdemonização. Que o mal
nos ronde. Sim, todavia, que o bem o inofencive sempre. Tomar
nossa razão e distribuí-la como o pão
da vida. E que a ternura seja o sal de nossa proteção.
Corroer o inferno que corre em nossas veias. Extirpar de nosso
sangue o veneno. Veneno que move mãos mais, muito mais,
assassinas que criadoras. Dar ao cérebro nossa superior
escola de puro e eterno amar. Não que o ódio
desapareça. Permaneça, porém, a serviço
do viço daquele. Que o perdão perdure como meta
sempre inatingível. Inatingível, sim, vez que
faremos sempre por dele não precisar. A agonia ficará
restrita à inexorável separação
que a morte, afinal, sempre há de nos dar. Nada de
monotonia. Que a comédia não se esvaia. Que
a tragédia não se esvaia. Contudo, façam-se
definitivamente exclusiva ficção. Entretenimento
e exercício. Haveremos de comer o pão que a
mãe Terra sempre saberá nos dar. Beberemos a
água que os rios sempre estarão a nos ofertar.
Ah! há de ser muito bom! Aos nossos irmãos animais,
sem restrição, acolheremos com unção
e piedade. Tão pobres. Tão dependentes. Hão
de estar a salvo. Sem exceção. O gado morrerá
de velhice. Os cavalos pastarão por todo o sempre o
bom capim. Nada de servidão. As carroças completamente
abolidas. Nada de carne como comida. Não abatê-los
para a nossa fome. Mas sim, mais tê-los para o reconforto
de nossa alma. Ver a beleza deles. A ternura dos olhos deles.
Eis que teremos o paraíso Terra atingido. Nada de nos
escravizarmos. Cada homem será senhor de sua dignidade.
Sem que, para isso, nenhuma interferência ocorra na
dignidade do outro. Decerto que esse estado vem vindo cada
vez mais. É a nossa engenhosidade seu instaurador.
Avança inexoravelmente. Seremos nosso próprio
engenho. Não mais oprimiremos. Não mais escravizaremos.
Não mais mataremos. A nossa técnica nos redimirá.
Então, O poeta verá cumprir
sua previsão: "Aurora,/ entretanto eu te diviso,
ainda tímida,/ inexperiente das luzes que vais acender/
e dos bens que repartirás com todos os homens./Sob
o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,/adivinho-te
que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna."