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Minha estrela encandecente
Data 08/jun/2001

Um dia eu vi uma estrela. Mal me sabia ainda. E aquela estrela me pegou. O mal da solidão já ia se apoderando de mim. E eu sequer supunha ainda existirem os poetas românticos.

As coisas da existência iam me encantando a cada vez. Certamente a doença crônica do lirismo criava seus tentáculos para nunca mais. A comoção primeiro. Depois a reflexão. Depois de embeber-me delas. Então vinha a indagação. E a questão perorava, até que uma explicação plausível a conformasse. Creio mesmo que assim continua. Assim é.

E o gosto pelo simples. O gosto pela pobreza. O gosto permanente de devotadamente entregar-se às fragilidades. Não que não fosse simples. Que não fosse pobre. Que não fosse frágil. Eu o era. Todavia esta condição humana pessoal não chegava a me fazer mal. Aguçava-me, instigava-me, sim, esta condição humana de outros. Compadecia-me delas. Doíam-me. E me faziam ir aprendendo a precariedade da condição humana. O cáustico sentimento de impotência também se sedimentando.

Mas a alegria de viver fortalecia-se. O mundo mais me comovendo, que chocando. Mesmo o choque acabava me dando alegrias que a esperança insistia sempre em projetar. E a linguagem dos anjos me seduzia. Propendendo-me sempre ao arredio. Comover-se. Mas, a distância, olhar o mundo. O que introjetava a reflexão. "Andar, andar, que um poeta/não necessita de casa." "Um poeta, à mercê do espaço/nem necessita de vida." "Porque o poeta, indiferente,/anda por andar - somente./Não necessita de nada."

Tomava-me um gosto inefável pelo escuso. Os ermos lugares. Estava bem onde só fosse natureza. Um bem enorme. O sol luzente quentando tudo. As árvores suportando o mau humor solar. E dando sombras. Tal a dádiva delas. Capazes de transformar em prazer o inferno desabado em seu dorso. Os rios. Túmidos. Com seus segredos. Os muitos pássaros. As múltiplas linguagens deles. As muitas espécies num mesmo hábitat. Exímios poliglotas. Pois, simultaneamente, exercendo cada qual a sua linguagem e compreendendo as muitas outras de seus convivas.

Sim. Mas a noite era também pródiga de encantos com seus sortilégios. Assim, um dia. Apenas eu e ela. Deitado na relva. O pretume dela mandando em tudo. Eu vi o que ficou sendo a minha estrela. Linda. Esplendente. Me escapa o quanto fiquei a fitá-la. A fitá-la. A fitá-la. Súbito, ela desabou vertiginosamente vindo sobre mim. Como se quisesse me arrebatar. Tornar-me seu. Cheguei a erguer-me a meio. Como se ao mesmo tempo buscasse defender-me e abraçá-la. Foi minha primeira estrela cadente. Que ficou sendo meu cadinho. Soube, depois, que ela se chama Aldebarã.

E Aldebarã é meu talismã. Minha fada marinha. Minha Aldebarã. A quem beijo todas as noites. Um beijo, minha fada. Me guarda. Até amanhã.



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