Um dia eu vi uma estrela. Mal me sabia ainda.
E aquela estrela me pegou. O mal da solidão já
ia se apoderando de mim. E eu sequer supunha ainda existirem
os poetas românticos.
As coisas da existência iam me encantando
a cada vez. Certamente a doença crônica do lirismo
criava seus tentáculos para nunca mais. A comoção
primeiro. Depois a reflexão. Depois de embeber-me delas.
Então vinha a indagação. E a questão
perorava, até que uma explicação plausível
a conformasse. Creio mesmo que assim continua. Assim é.
E o gosto pelo simples. O gosto pela pobreza.
O gosto permanente de devotadamente entregar-se às
fragilidades. Não que não fosse simples. Que
não fosse pobre. Que não fosse frágil.
Eu o era. Todavia esta condição humana pessoal
não chegava a me fazer mal. Aguçava-me, instigava-me,
sim, esta condição humana de outros. Compadecia-me
delas. Doíam-me. E me faziam ir aprendendo a precariedade
da condição humana. O cáustico sentimento
de impotência também se sedimentando.
Mas a alegria de viver fortalecia-se. O mundo
mais me comovendo, que chocando. Mesmo o choque acabava me
dando alegrias que a esperança insistia sempre em projetar.
E a linguagem dos anjos me seduzia. Propendendo-me sempre
ao arredio. Comover-se. Mas, a distância, olhar o mundo.
O que introjetava a reflexão. "Andar, andar, que
um poeta/não necessita de casa." "Um poeta,
à mercê do espaço/nem necessita de vida."
"Porque o poeta, indiferente,/anda por andar - somente./Não
necessita de nada."
Tomava-me um gosto inefável pelo escuso.
Os ermos lugares. Estava bem onde só fosse natureza.
Um bem enorme. O sol luzente quentando tudo. As árvores
suportando o mau humor solar. E dando sombras. Tal a dádiva
delas. Capazes de transformar em prazer o inferno desabado
em seu dorso. Os rios. Túmidos. Com seus segredos.
Os muitos pássaros. As múltiplas linguagens
deles. As muitas espécies num mesmo hábitat.
Exímios poliglotas. Pois, simultaneamente, exercendo
cada qual a sua linguagem e compreendendo as muitas outras
de seus convivas.
Sim. Mas a noite era também pródiga
de encantos com seus sortilégios. Assim, um dia. Apenas
eu e ela. Deitado na relva. O pretume dela mandando em tudo.
Eu vi o que ficou sendo a minha estrela. Linda. Esplendente.
Me escapa o quanto fiquei a fitá-la. A fitá-la.
A fitá-la. Súbito, ela desabou vertiginosamente
vindo sobre mim. Como se quisesse me arrebatar. Tornar-me
seu. Cheguei a erguer-me a meio. Como se ao mesmo tempo buscasse
defender-me e abraçá-la. Foi minha primeira
estrela cadente. Que ficou sendo meu cadinho. Soube, depois,
que ela se chama Aldebarã.
E Aldebarã é meu talismã.
Minha fada marinha. Minha Aldebarã. A quem beijo todas
as noites. Um beijo, minha fada. Me guarda. Até amanhã.