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Inverno bom
Data 01/jun/2001

O inverno. Prenúncios dele em seu vizinho. O outono. Estação dividida. Se tece indolentemente com vestes frias. Com vestes leves. Sopra o minuano lancinante. Sopra a brisa acariciante. O outono é mesmo um xifópago. É meio verão. É meio inverno. A sociedade fica meio macambúzia nele.

A natureza, não. Estabelece sempre o modo de ser do seu tempo e espaço. Suas marcas. Seu ser peculiariza-se a cada estado. Marca-se pelas plantas. Pelo céu. Pelo mar. Pelo ar. Pelos pássaros.

Lembra-se bem, de quando a percebeu. A rotina tangendo-o em sua lida. Passava mecanicamente por ali. Como passavam por ali mecanicamente as outras pessoas. Cada qual consigo. Cada qual se conduzindo. Formigas atrás de seu destino. O instinto antenado. O ir mecânico. Cada qual no seu ritmo de pressa. Uns de automóvel. Uns de motocicleta. Uns de bicicleta. Outros tantos a pé. E as marcas de suas classes sociais se estampam em seus veículos condutores.

À tardezinha o ritmo se repete É quando todos tornam para casa. Mecanicamente. Vão para outras atividades. A novela da tevê. A diversão pela noite. A escola. Assim, até que o sono os imobilize. E o sonho se apodere deles. O sonho com seu carrossel carregado de imprevidências.

No outro dia, a manhãzinha. E tudo recomeça. A rotina. Assim, até que o previsível desconhecido venha com sua definitiva pedra por cima.

Então, cumprindo esse seu destino foi, numa manhãzinha, que a viu. Outono findo. Inverno com seus arsenais franqueados. Ela. Numa das margens da lagoa. Ensimesmada em seu branco alongado e curvo. Um ritmo outro. O do recolho. Por que ali naquela lagoa arrodeada de morada de homens? Não avançara a reflexão. Conformara-se com a cômoda resposta: a natureza sabe o que faz.

Entregara-se, de então, à contemplação. Um espécime digno de encher os olhos. De mexer com a alma. E ela ficara nele. Tinha necessidade de vê-la. A bela imagem. Nívea ave altiva. Pelas margens. Cumprindo seu destino. Pastora de peixes para seu próprio repasto. Garbosa. O ritmo vivo dos homens na tessitura de seu destino. Pela rua paralela à lagoa. Os homens vão apressados. O incômodo frio. Ela ali. A olhá-los. A não olhá-los. O seu amor por ela. As suas apreensões, quando não a via. Seu sossego, quando ela restabelecia a rotina.

Veio o verão. Ela se foi. Os homens passaram a ocupar a lagoa. Pescaria. Banhos. Seu instinto instigou-a a ir, de certo. O homem está aí. E o homem ocupou a lagoa. E o homem emporcalhou a lagoa. O homem disseminou seu lixo pela lagoa. A sua garça debandou.

Agora, inverno se avizinhando. A viva saudade dela passou a ter esperança. E um dia, o susto. Ela viera. Lá estava, numa das margens. Donzela bela com sua aureobranca linhagem. Regozijou-se. Alegria imensa. Seu namoro restabelecera-se. Feliz novamente..

Mas algo o desconfortava. Na lagoa, havia uma tapera. Que agora era habitada. Havia meninos. Havia um cachorro. A garça espaçava suas estadas. Certamente, andava considerando a nova realidade.



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