O inverno. Prenúncios dele em seu vizinho.
O outono. Estação dividida. Se tece indolentemente
com vestes frias. Com vestes leves. Sopra o minuano lancinante.
Sopra a brisa acariciante. O outono é mesmo um xifópago.
É meio verão. É meio inverno. A sociedade
fica meio macambúzia nele.
A natureza, não. Estabelece sempre
o modo de ser do seu tempo e espaço. Suas marcas. Seu
ser peculiariza-se a cada estado. Marca-se pelas plantas.
Pelo céu. Pelo mar. Pelo ar. Pelos pássaros.
Lembra-se bem, de quando a percebeu. A rotina
tangendo-o em sua lida. Passava mecanicamente por ali. Como
passavam por ali mecanicamente as outras pessoas. Cada qual
consigo. Cada qual se conduzindo. Formigas atrás de
seu destino. O instinto antenado. O ir mecânico. Cada
qual no seu ritmo de pressa. Uns de automóvel. Uns
de motocicleta. Uns de bicicleta. Outros tantos a pé.
E as marcas de suas classes sociais se estampam em seus veículos
condutores.
À tardezinha o ritmo se repete É
quando todos tornam para casa. Mecanicamente. Vão para
outras atividades. A novela da tevê. A diversão
pela noite. A escola. Assim, até que o sono os imobilize.
E o sonho se apodere deles. O sonho com seu carrossel carregado
de imprevidências.
No outro dia, a manhãzinha. E tudo
recomeça. A rotina. Assim, até que o previsível
desconhecido venha com sua definitiva pedra por cima.
Então, cumprindo esse seu destino foi,
numa manhãzinha, que a viu. Outono findo. Inverno com
seus arsenais franqueados. Ela. Numa das margens da lagoa.
Ensimesmada em seu branco alongado e curvo. Um ritmo outro.
O do recolho. Por que ali naquela lagoa arrodeada de morada
de homens? Não avançara a reflexão. Conformara-se
com a cômoda resposta: a natureza sabe o que faz.
Entregara-se, de então, à contemplação.
Um espécime digno de encher os olhos. De mexer com
a alma. E ela ficara nele. Tinha necessidade de vê-la.
A bela imagem. Nívea ave altiva. Pelas margens. Cumprindo
seu destino. Pastora de peixes para seu próprio repasto.
Garbosa. O ritmo vivo dos homens na tessitura de seu destino.
Pela rua paralela à lagoa. Os homens vão apressados.
O incômodo frio. Ela ali. A olhá-los. A não
olhá-los. O seu amor por ela. As suas apreensões,
quando não a via. Seu sossego, quando ela restabelecia
a rotina.
Veio o verão. Ela se foi. Os homens
passaram a ocupar a lagoa. Pescaria. Banhos. Seu instinto
instigou-a a ir, de certo. O homem está aí.
E o homem ocupou a lagoa. E o homem emporcalhou a lagoa. O
homem disseminou seu lixo pela lagoa. A sua garça debandou.
Agora, inverno se avizinhando. A viva saudade
dela passou a ter esperança. E um dia, o susto. Ela
viera. Lá estava, numa das margens. Donzela bela com
sua aureobranca linhagem. Regozijou-se. Alegria imensa. Seu
namoro restabelecera-se. Feliz novamente..
Mas algo o desconfortava. Na lagoa, havia
uma tapera. Que agora era habitada. Havia meninos. Havia um
cachorro. A garça espaçava suas estadas. Certamente,
andava considerando a nova realidade.