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Peteca
Data 28/mai/2001

Assaltou-o a imagem de uma peteca.

Peteca. Peteca. Peteca. As meninas jogando. Barulhentas. Estridulando à cata da peteca. Estapeá-la, para impedir sua queda. E soerguê-la, para sustentar o jogo.

Tornou ao menino. Ali. Ante ele. Esperando. Sem dizer uma palavra. Como se tivesse também se ausentado. Mas não. Enquanto a peteca ia de uma a outra menina, seus olhos fitavam o menino. Ali. Que se estremunhava. Que lhe fora falando a sua história. E o seu rosto crispando. Ora os olhos pispiscavam.

A esboçada história daquele menino. Recém-entrado na adolescência. As meninas. Se lembrava. Já lhes demorava o olhar. Suas pernas. Magricelas. Contudo, fortes. Ágeis. Como as dele. Claro, as suas eram pernas de jogar bola. De pé-na-lata. De piques e salvas. Brincadeiras de meninos.
Entre elas, estava o seu rabicho. Às vezes, iam jogar peteca com elas. Apenas para ficarem perto. Se olharem. Se roçagarem. Jogar peteca, muito maçante. Coisa de menina. Mas ficavam com elas.

A incipiente história daquele menino. Recém-entrado na adolescência. Tão menino. Sozinho. Morando com o pai. Cuja mulher não é a mãe do menino. Morara com a mãe. Cujo homem não é o pai do menino. Morara com a avó. Cujo neto, o menino, logo a transtornaria. Entrando na idade. Já desacostumada a lidar com eles. Quanto mais esses de agora. Bocudos. Desobedientes. Respondões. Temporadas eram suportáveis. Neto. Contudo, indeterminadamente, não convinha.

Toca a peteca pro pai. Outra família. Madrasta simpática. Acolhedora. Mas madrasta. Lidar com filho alheio é barra. Toca a peteca pra mãe. Outra família. Padrasto simpático. Acolhedor. Mas, padrasto. Por mais que não queira. Lidar com filho alheio é barra. Devolve a peteca pro pai.

A peteca vai. A peteca cai. Ou não cai. Corre. Toca. Não deixa a peteca cair. As meninas em algazarra. Se esbaforindo atrás da peteca. Estapeá-la para não cair. Riem. Alegres. Joviais. Os cabelos negros. Louros. Soltos. Presos. Esvoaçando ao vento. Perseguindo a peteca. As saias colegiais desnudando as coxas. Níveas coxas. Morenas. Róseas. Meninas de província. Brincando de peteca. Seus namoradinhos por perto. À espreita. Disfarçadamente jogando bolinha de gude. A cumplicidade.

O menino ali. Parece meio assustado. Ante ele, que mal lhe fala. E quase só o olha. E os tiques desgovernando o menino. Quanto mais tremelicam os olhos. Mais o sacudir dos ombros responde. Quer saber mais alguma coisa dele. Um pouco mais. O menino, todo tiques, é lacônico. Ele chama a assistente. Manda que leve o menino dali. O menino que a mãe mandou ao pai. Que mandou à avó. Que devolveu à mãe. Que reenviou ao pai. Menino que lhe disse, ao sair, que estava voltando para a mãe.

E ele, sozinho, tornou ao jogo de peteca das meninas de sua infância.



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