Peteca. Peteca. Peteca. As meninas jogando.
Barulhentas. Estridulando à cata da peteca. Estapeá-la,
para impedir sua queda. E soerguê-la, para sustentar
o jogo.
Tornou ao menino. Ali. Ante ele. Esperando.
Sem dizer uma palavra. Como se tivesse também se ausentado.
Mas não. Enquanto a peteca ia de uma a outra menina,
seus olhos fitavam o menino. Ali. Que se estremunhava. Que
lhe fora falando a sua história. E o seu rosto crispando.
Ora os olhos pispiscavam.
A esboçada história daquele
menino. Recém-entrado na adolescência. As meninas.
Se lembrava. Já lhes demorava o olhar. Suas pernas.
Magricelas. Contudo, fortes. Ágeis. Como as dele. Claro,
as suas eram pernas de jogar bola. De pé-na-lata. De
piques e salvas. Brincadeiras de meninos.
Entre elas, estava o seu rabicho. Às vezes, iam jogar
peteca com elas. Apenas para ficarem perto. Se olharem. Se
roçagarem. Jogar peteca, muito maçante. Coisa
de menina. Mas ficavam com elas.
A incipiente história daquele menino.
Recém-entrado na adolescência. Tão menino.
Sozinho. Morando com o pai. Cuja mulher não é
a mãe do menino. Morara com a mãe. Cujo homem
não é o pai do menino. Morara com a avó.
Cujo neto, o menino, logo a transtornaria. Entrando na idade.
Já desacostumada a lidar com eles. Quanto mais esses
de agora. Bocudos. Desobedientes. Respondões. Temporadas
eram suportáveis. Neto. Contudo, indeterminadamente,
não convinha.
Toca a peteca pro pai. Outra família.
Madrasta simpática. Acolhedora. Mas madrasta. Lidar
com filho alheio é barra. Toca a peteca pra mãe.
Outra família. Padrasto simpático. Acolhedor.
Mas, padrasto. Por mais que não queira. Lidar com filho
alheio é barra. Devolve a peteca pro pai.
A peteca vai. A peteca cai. Ou não
cai. Corre. Toca. Não deixa a peteca cair. As meninas
em algazarra. Se esbaforindo atrás da peteca. Estapeá-la
para não cair. Riem. Alegres. Joviais. Os cabelos negros.
Louros. Soltos. Presos. Esvoaçando ao vento. Perseguindo
a peteca. As saias colegiais desnudando as coxas. Níveas
coxas. Morenas. Róseas. Meninas de província.
Brincando de peteca. Seus namoradinhos por perto. À
espreita. Disfarçadamente jogando bolinha de gude.
A cumplicidade.
O menino ali. Parece meio assustado. Ante
ele, que mal lhe fala. E quase só o olha. E os tiques
desgovernando o menino. Quanto mais tremelicam os olhos. Mais
o sacudir dos ombros responde. Quer saber mais alguma coisa
dele. Um pouco mais. O menino, todo tiques, é lacônico.
Ele chama a assistente. Manda que leve o menino dali. O menino
que a mãe mandou ao pai. Que mandou à avó.
Que devolveu à mãe. Que reenviou ao pai. Menino
que lhe disse, ao sair, que estava voltando para a mãe.
E ele, sozinho, tornou ao jogo de peteca das
meninas de sua infância.