É a hora do frio. O inverno se enuncia
nas fímbrias do outono. É quando quase tudo
se encurta. Frio tropical. Para lembrar a eclética
figura de Ana Terra: o minuano trincando a epiderme. Mais.
Bem mais aos quase sempre desacostumados dele. Os do Sudeste.
Os do Centro-Oeste. Gente dada ao calor permanente. Logo se
cobrem. Dão-se ao guarda-roupa esquecido. Desencavam
vestuários fora de moda. Pois, a cada frio, a moda
reserva novas roupagens. Torna-se obsoleto vestir-se assim.
Isso foi para o frio de 1999. Tampouco essa estampa. Esse
capote marcou o frio de 2000. Já não serve.
É roupa fora de moda.
Contudo, o vento é o mesmo. O vento
que se dá ao refrigério, regela agora. No inverno,
o sol parece cheio de preguiça. Também ele parece
padecer de frio. Fica arredio. Muito faltoso. Como menino
pobre tendo que ir ao colégio tiritando. Prefere a
rala roupa de casa. O pouco cobertor. Ao menos, fica ali quietinho.
Ir à escola, no frio, é expor-se. Mas o sol
é poderoso. Não se pode admitir que tema as
geleiras do cosmo. Será que nesse período elas
se juntam? E poderosíssimas sobrepõem-se a ele?
Talvez. Porque, há dias, em certos invernos, que o
sol é forte. Mas o frio é vivo. No verão,
onde o sol incide, fica fogo. O asfalto das ruas, por exemplo.
Já no inverno, inverno, o sol vivo. Ainda assim o chão
é frio.
O certo é que o sol fica vadio no inverno.
Faltoso. Todavia, admita-se, tem lá também suas
camaradagens. Sobretudo se o minuano se minimiza. Todo o mundo.
Homens. Mulheres. Crianças. Animais. Põem-se
a quentar-se ao sol. Ficam horas. Jogando conversa fora. Enquanto
o bem-bom do sol aquece. Mas, no geral, em tempo de frio,
o sol mal mostra a cara. Fica o dia todo mal humorado. Fica
num entra e sai permanente. Dando trela à ousadia do
minuano. E o cinza fica governando. Todo cheio de si se expandindo,
ante a inconstância do sol. Põe um tom fosco
em tudo. O céu é nuvens de chumbo. Como se em
permanente tempo de chuva.
Tempo de recolhimento. As pessoas vão
encolhidas. Vão embrulhadas em suas roupas pesadas.
Vão pesadas. Quando podem, são mais do que nunca
de dentro de casa. E aos sem-casa, é o frio grande
desgraça. Sem contar que o frio acorda suas doenças.
A bronquite. A asma. A renite. A artrose. Essas doenças
a que o frio favorece.
Tudo se ressente ao frio. A própria
natureza fica ressentida. Ganha uma feição enfezada.
Seu brilho alegre desaparece. Ao viço, sobrepõe-se
uma certa palidez. As rugas de sua pele ganham vividez. Mais
ásperas. Esmaecidas as tonalidades. A relva rapidamente
se desidrata. Se enrala. Seu desaparecimento paira como uma
permanente ameaça. Nada apaga esse ar de desolação.
A chuva, talvez. Todavia, tempo de frio afugenta chuva. Mas
também afugenta tantas doenças.
Afinal, frio é a quebra da rotina.
É o desigual. Sem ele, decerto, não haveria
a cobiça do verão. O frio refrigera os ânimos.
Dá inflexão. Depois, é carnaval.