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O frio
Data 16/mai/2001

É a hora do frio. O inverno se enuncia nas fímbrias do outono. É quando quase tudo se encurta. Frio tropical. Para lembrar a eclética figura de Ana Terra: o minuano trincando a epiderme. Mais. Bem mais aos quase sempre desacostumados dele. Os do Sudeste. Os do Centro-Oeste. Gente dada ao calor permanente. Logo se cobrem. Dão-se ao guarda-roupa esquecido. Desencavam vestuários fora de moda. Pois, a cada frio, a moda reserva novas roupagens. Torna-se obsoleto vestir-se assim. Isso foi para o frio de 1999. Tampouco essa estampa. Esse capote marcou o frio de 2000. Já não serve. É roupa fora de moda.

Contudo, o vento é o mesmo. O vento que se dá ao refrigério, regela agora. No inverno, o sol parece cheio de preguiça. Também ele parece padecer de frio. Fica arredio. Muito faltoso. Como menino pobre tendo que ir ao colégio tiritando. Prefere a rala roupa de casa. O pouco cobertor. Ao menos, fica ali quietinho. Ir à escola, no frio, é expor-se. Mas o sol é poderoso. Não se pode admitir que tema as geleiras do cosmo. Será que nesse período elas se juntam? E poderosíssimas sobrepõem-se a ele? Talvez. Porque, há dias, em certos invernos, que o sol é forte. Mas o frio é vivo. No verão, onde o sol incide, fica fogo. O asfalto das ruas, por exemplo. Já no inverno, inverno, o sol vivo. Ainda assim o chão é frio.

O certo é que o sol fica vadio no inverno. Faltoso. Todavia, admita-se, tem lá também suas camaradagens. Sobretudo se o minuano se minimiza. Todo o mundo. Homens. Mulheres. Crianças. Animais. Põem-se a quentar-se ao sol. Ficam horas. Jogando conversa fora. Enquanto o bem-bom do sol aquece. Mas, no geral, em tempo de frio, o sol mal mostra a cara. Fica o dia todo mal humorado. Fica num entra e sai permanente. Dando trela à ousadia do minuano. E o cinza fica governando. Todo cheio de si se expandindo, ante a inconstância do sol. Põe um tom fosco em tudo. O céu é nuvens de chumbo. Como se em permanente tempo de chuva.

Tempo de recolhimento. As pessoas vão encolhidas. Vão embrulhadas em suas roupas pesadas. Vão pesadas. Quando podem, são mais do que nunca de dentro de casa. E aos sem-casa, é o frio grande desgraça. Sem contar que o frio acorda suas doenças. A bronquite. A asma. A renite. A artrose. Essas doenças a que o frio favorece.

Tudo se ressente ao frio. A própria natureza fica ressentida. Ganha uma feição enfezada. Seu brilho alegre desaparece. Ao viço, sobrepõe-se uma certa palidez. As rugas de sua pele ganham vividez. Mais ásperas. Esmaecidas as tonalidades. A relva rapidamente se desidrata. Se enrala. Seu desaparecimento paira como uma permanente ameaça. Nada apaga esse ar de desolação. A chuva, talvez. Todavia, tempo de frio afugenta chuva. Mas também afugenta tantas doenças.

Afinal, frio é a quebra da rotina. É o desigual. Sem ele, decerto, não haveria a cobiça do verão. O frio refrigera os ânimos. Dá inflexão. Depois, é carnaval.



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