A
cidade era bem mais que um dia de domingo após
o almoço
Data
11/mai/2001
Havia no ar um torpor coletivo. Ninguém
ousava destoar. Apoderara-se deles aquele tácito conluio.
O silêncio, a moeda corrente. A competição.
Os olhares é que falavam. Voz humana pareceria sacrílega.
A passos moderados. A passos comedidos. Iam. E vinham as pessoas.
Cumprimentavam-se com o clássico inclinar-se de cabeça.
Voz, nem pensar. Até os cães iam sorumbáticos.
Nada de latir. Solidários com a quietude dos seus.
A cidade era bem mais que um dia de domingo
após o almoço. Assemelhava-se mais com as sextas-feiras
da paixão de antigamente. De quando a gente menino.
Lá, até rir era pecado. Agora, era assim. Em
cada esquina residia nada mais que o silêncio. Nos bares,
os homens bebiam contritos. Cada qual consigo e com sua bebida.
Companheiros de mesa olhavam-se mutuamente. Entreolhavam-se
mutuamente. E bebiam cada qual o seu trago. Ainda há
pouco houvera brindes. Cantorias. Homenagens. Mas, o esgarçamento,
de repente, é um fado.
Conformar-se como quando a morte se apresenta.
Era algo semelhante. Entregar-se ao imponderável. Sob
o qual se sucumbe. Gritar atrapalharia mais. Abrigar-se, impossível.
Que daquilo nada se esconde. Ao menos no silêncio, se
pensa. Em hora dessa principalmente. Os sentidos se irmanam.
E se concentram para a qualificada percepção.
O mínimo é visto. Ouvido. Cheirado. Há
uma vontade ecumênica de se instaurar uma resolução.
Então, emoção e raciocínio. Apreensivamente,
teme-se. Contudo, esse medo dispara neurônios. Construir
possibilidades de saída.
Não arredar esperanças de que
aquele pesadelo se desfaria. Não. Não o mereciam.
Doía em todos, saber-se naquele estado. Cidadãos
pacatos. Mães prestimosas. Pais honrados. Capazes de
desastres pelo pão de seus filhos. Capazes de, tresloucado
que fosse, sozinhos, suportarem aquela catástrofe.
Mas, não eram dignos dela.
Um clima de calafrios. Nada menos. A alma
tremia. O corpo gélido. As crianças tinham faces
de pavor. Os olhos estatelados. Refletiam a dor dos adultos.
Entendiam quase nada. Entretanto, pressentiam que algo trágico
pairava, prestes a precipitar. Buscavam amparos. O amor dos
seus adultos para se defenderem. Assaltados pelo susto, punham-se
ao rasto da mãe. Do pai. Da avó. Ou da mãe
do pai da avó.
E a aflição na deixava a gente.
Tudo parecia um nunca se acabar. E que o pior, uma possibilidade
acentuada. Os olhares se socorriam uns aos outros. Confortavam-se
mutuamente. O pavor à tragédia iminente levava
a gente à praça central. À praça.
Às ruas que a circundavam. Podia-se afirmar que a cidade
toda já estava ali. Taciturnas, as pessoas se abraçavam.
Apertavam-se as mãos. Tudo parecia pêsames de
uns aos outros.
Súbito, soaram alguns fortes acordes
de piano. E logo a música alegre. Linda. Energizante.
Invadindo os contritos corações. Daí
a pouco, quando se viu, as pessoas todas se davam à
dança. E dançavam. E dançavam. Música
e dança à exaustão. Depois, derreavam.
Suados. Cansaço físico visível. Acomodavam-se
em bancos. No chão da praça. No chão
da rua. Estavam felizes.
E foi aí que se lembraram de que havia
o grande perigo. Necessário retomar a apreensão.
Entretanto, era tarde demais. O perigo já havia desaparecido.