Home
|
Conheça Tito Damazo
|
Textos
|
Contato
|



Instância
Data 04/mai/2001

Pedi à palmeira de minha janela o poema. Fosse breve. Fosse longo. Contivesse samba. Contivesse outro ritmo latino. Tango, que fosse. Neruda ou Borges mo inspirasse. Ou mesmo o caótico estupendo Cortazar. Queria um poema porreta. Leve como as caudas de pavão de suas folhas distendidas no ar. Ousado como sua intempestiva envergadura perpendicular à janela. Sobrepondo-se ao telhado. Majestático como sua altura já se justapondo à do cajueiro.

Um poema a plenos pulmões como o de Maiakóvski.Um poema pleno de sentidos invólucros sob a carapaça nodosa de suas cascas. Cascas-fibra. Protetoras e macias. Em seu íntimo, o complexo de suas veias. Água cristalina às sedes humanas insaciáveis. Esguio e insinuoso como seu tronco crescente. Belo como o processo de concepção de seus frutos: uma espécie de palma toda invólucro primeiro. Amarelo-pardo rugoso, mas não áspero. Que vai fendendo em seu parto pródigo de filhotes de coco. Com cacho de ramas de filhotes. Feito ramalhete de arroz de arrozal. Um amarelo-limão. Grandes grãos. As irapuãs a poliná-los E a ramagem amarelo-limão fica toda salpicada de negro. Um negro vivo. Ativo. Extraindo leite de pedras. Que o mel dado é escasso.

Dá-me, pois, um poema, palmeira minha. Lindo. Livre. Alado. Ouro. Cuja linguagem mágica opere transmutações dessas no meu leitor. Que sua alma, ante ele, seja como a minha ante a ti. Indagadora e comovida. Confiante. Esperançosa. Haverá sempre de dar água boa. Água pura. Potável. Capaz de curar mazelas. Mazelas da alma. Retemperando sonhos. Reenergizando ânimos.

Que pode um poema, senão como teus frutos? Reverdejar projetos. Recompor ao corpo o seu estado energético. Reidratá-lo. Repontencializá-lo. E dizer-lhe: vai, estás pronto de novo. Renovado menino. Audaz. Confiante em teu destino. Dar à alma-poema o poema-alma. Repotencializar teu espectro. Erecto. Rompante. Buscando o alto e se estendendo em palmas. Palmas abertas em sombras. Corpo pródigo de cocos em profusão. Minha alma, tua palma.

Dá-me, pois, palmeira, o poema em que diria a mim o que não seria capaz de dizer ao mais sórdido dos homens. Que de teu pórtico decano ressoe a voz lancinante de meu verso dadivoso. Escabroso. Cortante como o sol que te penetra fértil. Esgarçado como tua raiz exposta à terra insinuando fragilidades. Ardiloso como o incerto de teus brotos. Aconchegante como tuas sombras arejadas e raiadas de sol.

Um poema, palmeira, em que minha voz amedronte o inumano. Acalante o desespero. Professe o verso dessacralizante. E esparja seu ritmo aos íntimos. Aos iníquos. E que a eles sirva. Como serviço. Como desserviço. Mesmo que seja um vício. Ou um viço.

E assim, dar-me-ei por completamente inquieto. Incompleto. E inacabado poeta.



Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003, Poetagem - www.poetagem.com.br

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético