Pedi à palmeira de minha janela o poema.
Fosse breve. Fosse longo. Contivesse samba. Contivesse outro
ritmo latino. Tango, que fosse. Neruda ou Borges mo inspirasse.
Ou mesmo o caótico estupendo Cortazar. Queria um poema
porreta. Leve como as caudas de pavão de suas folhas
distendidas no ar. Ousado como sua intempestiva envergadura
perpendicular à janela. Sobrepondo-se ao telhado. Majestático
como sua altura já se justapondo à do cajueiro.
Um poema a plenos pulmões como o de
Maiakóvski.Um poema pleno de sentidos invólucros
sob a carapaça nodosa de suas cascas. Cascas-fibra.
Protetoras e macias. Em seu íntimo, o complexo de suas
veias. Água cristalina às sedes humanas insaciáveis.
Esguio e insinuoso como seu tronco crescente. Belo como o
processo de concepção de seus frutos: uma espécie
de palma toda invólucro primeiro. Amarelo-pardo rugoso,
mas não áspero. Que vai fendendo em seu parto
pródigo de filhotes de coco. Com cacho de ramas de
filhotes. Feito ramalhete de arroz de arrozal. Um amarelo-limão.
Grandes grãos. As irapuãs a poliná-los
E a ramagem amarelo-limão fica toda salpicada de negro.
Um negro vivo. Ativo. Extraindo leite de pedras. Que o mel
dado é escasso.
Dá-me, pois, um poema, palmeira minha.
Lindo. Livre. Alado. Ouro. Cuja linguagem mágica opere
transmutações dessas no meu leitor. Que sua
alma, ante ele, seja como a minha ante a ti. Indagadora e
comovida. Confiante. Esperançosa. Haverá sempre
de dar água boa. Água pura. Potável.
Capaz de curar mazelas. Mazelas da alma. Retemperando sonhos.
Reenergizando ânimos.
Que pode um poema, senão como teus
frutos? Reverdejar projetos. Recompor ao corpo o seu estado
energético. Reidratá-lo. Repontencializá-lo.
E dizer-lhe: vai, estás pronto de novo. Renovado menino.
Audaz. Confiante em teu destino. Dar à alma-poema o
poema-alma. Repotencializar teu espectro. Erecto. Rompante.
Buscando o alto e se estendendo em palmas. Palmas abertas
em sombras. Corpo pródigo de cocos em profusão.
Minha alma, tua palma.
Dá-me, pois, palmeira, o poema em que
diria a mim o que não seria capaz de dizer ao mais
sórdido dos homens. Que de teu pórtico decano
ressoe a voz lancinante de meu verso dadivoso. Escabroso.
Cortante como o sol que te penetra fértil. Esgarçado
como tua raiz exposta à terra insinuando fragilidades.
Ardiloso como o incerto de teus brotos. Aconchegante como
tuas sombras arejadas e raiadas de sol.
Um poema, palmeira, em que minha voz amedronte
o inumano. Acalante o desespero. Professe o verso dessacralizante.
E esparja seu ritmo aos íntimos. Aos iníquos.
E que a eles sirva. Como serviço. Como desserviço.
Mesmo que seja um vício. Ou um viço.
E assim, dar-me-ei por completamente inquieto.
Incompleto. E inacabado poeta.