Foi assim. Chegou. Disse-lhe pronta? Sem que
obtivesse resposta verbal, entregou-se à sua determinação.
Os olhos dela diziam que sim, sim! E o riso esplendente.
Estendeu a túnica de carmim acetinada.
Que reluzia em sua maciez. Tomou do comprimido que trouxera
na carteira. Disse-lhe confie em mim. Necessário ingeri-lo
sem água. Sofregamente, ela o engoliu. Não se
perturbe. A poção reconstituinte está
a sete chaves na minha carteira. E ninguém, mais que
eu, a quer inteira. Como és.
Envolveu-a na túnica. Ela já
ia mínima. Depô-la na mochila. E saiu.
Calça jeans. Camiseta de múltiplas
estampas. Tênis da hora. Ia. Caminhava como quem quer
chegar a lugar nenhum. Fisionomia de um feliz. Felicidade
natural. De um cara pela rua. Mãos nos bolsos. Assobio
nos lábios. Semeando cumprimentos. Chutando tampinhas.
Recolhendo o lixo público. Observando as coisas. Os
transeuntes. Louvando a leveza e as carícias da brisa.
Olhando o trânsito. Aquela avenida. Agora é que
reparava o seu movimento. Intenso. Automóveis. Circulares.
Motocicletas. Bicicletas. Carroceiro, vez em quando. Os carrinhos
dos catadores de papel. Os cachorros.
Ia alegre feito um menino indo para a sua
liberdade. E levava a tiracolo sua prenda máxima. Tudo
quanto aspirava. O seu bem-querer consigo. Na mochila. Maravilha.
Tê-la consigo. Um com o outro. Sozinhos. Então,
abrirem o arsenal de convicções e angústias.
Longe de pai e mãe. Longe de olhos gordos. Cada um
expor a sua bagagem. Desimpedidamente, conferir. O que só
lhes dizia respeito.
Ela, decerto, faria um arrazoado amoroso sobre
os olhos negros dele. Ele, dos azul-safira dela. Beijos de
lábios negros atarracados a lábios róseos.
E seus sonhos dogmáticos freudianamente interpretados.
Onde? Um lugar... Ele ainda o tinha vago.
Ausente como real definido. Oniricamente haviam estabelecido
um vale montanhoso. Uns poucos lagos. O verde de um pasto
baixo. Gramíneos atapetando tudo. Flores campesinas
espraiadas.
Assim. Eu sou teu. Tu és minha. Toda
leitura valia ser recitada. Ela lhe sussurrava da mochila
estímulos. Dois perdidos por uma causa. Causa tão
antiga como a própria condição humana.
Dois sujeitos, então, normais, construindo sua história.
Viviam a milenar e maior história: não é
bom que um homem e uma mulher renunciem ao amor que se lhes
interpõe.
O pacto que compuseram, finalmente, posto
em prática. Restava ver o dali em diante. Mas não
tinham pressa. Nem medo.Tornaram ao sonho. Ele ia caminhando.
Já se achava na rodovia para uma carona. Confabulavam
a respeito do paradeiro. Ela, feliz a tiracolo, confiava-lhe
a escolha do lugar. Contanto que respeitasse o sonho que juntos
sonhavam.
A cada carona negada, ele punha-se a caminho.
Por fim, um automóvel. Ao aproximar-se para confirmar
a carona, o revólver em seu peito. Dominaram-no. Arrancaram-lhe
a mochila. Atiraram-no ribanceira abaixo. E se foram. Pneus
comendo o áspero asfalto da estrada.