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Fulgência
Data 30/abr/2001

Foi assim. Chegou. Disse-lhe pronta? Sem que obtivesse resposta verbal, entregou-se à sua determinação. Os olhos dela diziam que sim, sim! E o riso esplendente.

Estendeu a túnica de carmim acetinada. Que reluzia em sua maciez. Tomou do comprimido que trouxera na carteira. Disse-lhe confie em mim. Necessário ingeri-lo sem água. Sofregamente, ela o engoliu. Não se perturbe. A poção reconstituinte está a sete chaves na minha carteira. E ninguém, mais que eu, a quer inteira. Como és.

Envolveu-a na túnica. Ela já ia mínima. Depô-la na mochila. E saiu.

Calça jeans. Camiseta de múltiplas estampas. Tênis da hora. Ia. Caminhava como quem quer chegar a lugar nenhum. Fisionomia de um feliz. Felicidade natural. De um cara pela rua. Mãos nos bolsos. Assobio nos lábios. Semeando cumprimentos. Chutando tampinhas. Recolhendo o lixo público. Observando as coisas. Os transeuntes. Louvando a leveza e as carícias da brisa. Olhando o trânsito. Aquela avenida. Agora é que reparava o seu movimento. Intenso. Automóveis. Circulares. Motocicletas. Bicicletas. Carroceiro, vez em quando. Os carrinhos dos catadores de papel. Os cachorros.

Ia alegre feito um menino indo para a sua liberdade. E levava a tiracolo sua prenda máxima. Tudo quanto aspirava. O seu bem-querer consigo. Na mochila. Maravilha. Tê-la consigo. Um com o outro. Sozinhos. Então, abrirem o arsenal de convicções e angústias. Longe de pai e mãe. Longe de olhos gordos. Cada um expor a sua bagagem. Desimpedidamente, conferir. O que só lhes dizia respeito.

Ela, decerto, faria um arrazoado amoroso sobre os olhos negros dele. Ele, dos azul-safira dela. Beijos de lábios negros atarracados a lábios róseos. E seus sonhos dogmáticos freudianamente interpretados.

Onde? Um lugar... Ele ainda o tinha vago. Ausente como real definido. Oniricamente haviam estabelecido um vale montanhoso. Uns poucos lagos. O verde de um pasto baixo. Gramíneos atapetando tudo. Flores campesinas espraiadas.

Assim. Eu sou teu. Tu és minha. Toda leitura valia ser recitada. Ela lhe sussurrava da mochila estímulos. Dois perdidos por uma causa. Causa tão antiga como a própria condição humana. Dois sujeitos, então, normais, construindo sua história. Viviam a milenar e maior história: não é bom que um homem e uma mulher renunciem ao amor que se lhes interpõe.

O pacto que compuseram, finalmente, posto em prática. Restava ver o dali em diante. Mas não tinham pressa. Nem medo.Tornaram ao sonho. Ele ia caminhando. Já se achava na rodovia para uma carona. Confabulavam a respeito do paradeiro. Ela, feliz a tiracolo, confiava-lhe a escolha do lugar. Contanto que respeitasse o sonho que juntos sonhavam.

A cada carona negada, ele punha-se a caminho. Por fim, um automóvel. Ao aproximar-se para confirmar a carona, o revólver em seu peito. Dominaram-no. Arrancaram-lhe a mochila. Atiraram-no ribanceira abaixo. E se foram. Pneus comendo o áspero asfalto da estrada.



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