Como o "menino mais novo" à
espreita vendo o pai. Fabiano se paramentando. A armadura
de couro cru. Depois domando o xucro. Os corcoveios do animal.
Fabiano montado firme. O menino à espreita. A respiração
ofegante. Os olhos acesos. Decerto torcendo pelo pai. Exultante,
por fim. Sorriso aberto. O animal se entrega. Fica trotando
pra lá pra cá. Ele ainda inebriado de admiração
pelo pai. Depois, ia à mangueira montar em bode. Feito
um Fabiano. Caía. Mas ficava olhando para o céu.
Deitado. Decúbito dorsal. Sorrindo feliz. O pai, um
valente. O pai, um cabra macho. O pai, o melhor vaqueiro daquelas
bandas.
Que menino não fora um "menino
mais novo"? Exceto os cujo pai não o era. Pai
dado ao filho é ídolo. Passa o time pelo qual
torce. Passa os vícios, se não os encobre. Passa
segurança. Passa temperança. Passa essas coisas
suas próprias. Coisas que pai preza. E que filho logo
pega. O modelo de um automóvel. A cachaça na
bodega. O cigarro entremeando conversas. Ninguém mais.
O pai. Ninguém, filho, fica sem. Sim, menos filhos
sem pai. Esses, além de órfãos, náufragos.
Pois ele também fora filho assim. Contudo,
esse seu pai fora muito mais o seu avô. Homem de fazenda
dos outros. Esses outros, donos de bons latifúndios.
Ao avô dele muito pretendiam. Tácita e quase
indisfarçável disputa.
Rigoroso administrador de fazenda. Incapaz
de tomar a sim um ovo, sendo da fazenda. Madrugadinha, já
vistoriando. Cavalo garbo. Rigorosamente equipado. O curral
de leite. O trabalho no eito. A panha de café. A panha
de algodão. A vacinação do gado. Sempre
laconicamente distribuindo recomendações. As
avaliações contínuas. Momentâneas.
Dizendo sim. Dizendo não. Decididamente.
Sangue germânico. Porte alto. Espigado.
Taciturno. Cismarento. De ficar horas a fio em sua cadeira
de alpendre. Fitando o tempo. A tarde que se apaga. A noite
tecendo-se de breu e astros. Capaz de uma conversação
de horas. Entrecortada de longos silêncios. Inflectido
em si mesmo. Senhor de quase absoluta sisudez. Sua presença
bastava.
Seu avô, esse pai. Um autodidata. O
que sabia, soubera-o por si mesmo. E sabia muito. Aplicava
injeção como se um autêntico farmacêutico.
O ritual de ferver seringa e agulha. Tanto em gente, quanto
em gado. Castrava. Castrava gado. Castrava porcos. Era quem
os abatia, na precisão. Mantinha um especial canivete
para a capação. Para os enxertos. Canivete que
o seduzia. Um dia espreitou o avô guarda-lo. Pôde
finalmente tocá-lo. Vê-lo com as mãos.
Conhecer aquele mágico objeto.
Ele sempre por perto. Tudo do avô presenciando.
Muitas vezes, sem prévio acordo, servia-se de ajudante.
O avô, de repente, lhe mandava fazer isso. Passar-lhe
aquilo. Buscar aqueloutro. Outras vezes que se afastasse.
Ficasse de longe.