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O menino é o pai do homem
Data 09/abr/2001

Como o "menino mais novo" à espreita vendo o pai. Fabiano se paramentando. A armadura de couro cru. Depois domando o xucro. Os corcoveios do animal. Fabiano montado firme. O menino à espreita. A respiração ofegante. Os olhos acesos. Decerto torcendo pelo pai. Exultante, por fim. Sorriso aberto. O animal se entrega. Fica trotando pra lá pra cá. Ele ainda inebriado de admiração pelo pai. Depois, ia à mangueira montar em bode. Feito um Fabiano. Caía. Mas ficava olhando para o céu. Deitado. Decúbito dorsal. Sorrindo feliz. O pai, um valente. O pai, um cabra macho. O pai, o melhor vaqueiro daquelas bandas.

Que menino não fora um "menino mais novo"? Exceto os cujo pai não o era. Pai dado ao filho é ídolo. Passa o time pelo qual torce. Passa os vícios, se não os encobre. Passa segurança. Passa temperança. Passa essas coisas suas próprias. Coisas que pai preza. E que filho logo pega. O modelo de um automóvel. A cachaça na bodega. O cigarro entremeando conversas. Ninguém mais. O pai. Ninguém, filho, fica sem. Sim, menos filhos sem pai. Esses, além de órfãos, náufragos.

Pois ele também fora filho assim. Contudo, esse seu pai fora muito mais o seu avô. Homem de fazenda dos outros. Esses outros, donos de bons latifúndios. Ao avô dele muito pretendiam. Tácita e quase indisfarçável disputa.

Rigoroso administrador de fazenda. Incapaz de tomar a sim um ovo, sendo da fazenda. Madrugadinha, já vistoriando. Cavalo garbo. Rigorosamente equipado. O curral de leite. O trabalho no eito. A panha de café. A panha de algodão. A vacinação do gado. Sempre laconicamente distribuindo recomendações. As avaliações contínuas. Momentâneas. Dizendo sim. Dizendo não. Decididamente.

Sangue germânico. Porte alto. Espigado. Taciturno. Cismarento. De ficar horas a fio em sua cadeira de alpendre. Fitando o tempo. A tarde que se apaga. A noite tecendo-se de breu e astros. Capaz de uma conversação de horas. Entrecortada de longos silêncios. Inflectido em si mesmo. Senhor de quase absoluta sisudez. Sua presença bastava.

Seu avô, esse pai. Um autodidata. O que sabia, soubera-o por si mesmo. E sabia muito. Aplicava injeção como se um autêntico farmacêutico. O ritual de ferver seringa e agulha. Tanto em gente, quanto em gado. Castrava. Castrava gado. Castrava porcos. Era quem os abatia, na precisão. Mantinha um especial canivete para a capação. Para os enxertos. Canivete que o seduzia. Um dia espreitou o avô guarda-lo. Pôde finalmente tocá-lo. Vê-lo com as mãos. Conhecer aquele mágico objeto.

Ele sempre por perto. Tudo do avô presenciando. Muitas vezes, sem prévio acordo, servia-se de ajudante. O avô, de repente, lhe mandava fazer isso. Passar-lhe aquilo. Buscar aqueloutro. Outras vezes que se afastasse. Ficasse de longe.

Sim, esse seu pai, fora aquele avô.



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