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Meu reino por teus sonhos
Data 15/fev/2001

Teus sonhos por meu reino. Um reino! Reinado pressupõe rei. Servis. Salamaleques e acatamentos. Manda o rei. Cumprem os súditos. Os vassalos.

O arbítrio. A palavra de ordem anunciada. Cumpra-se. Sua Majestade assim decretou. E se um reino de rei benevolente, muito melhor. Reinado cujo rei prime por pão e circo. À fome de meu povo, o pão. O peixe. A sopa. A Casa de Misericórdia Real aos pobres.

Nada, entretanto, de vagabundagem. O lema de meu reino é trabalho.E os tributos à saúde do rei implicam saúde do reino. Sua piedade se difunda. Sua generosidade. Contudo, jamais provocar sua ira. Rei irado, "fé cega, faca amolada". Sua vontade, uma ordem. Em suas veias corre sangue azul. Azul do céu. Azul do mar. Toda possessão lhe vem dos céus. Senhor absoluto. Com Deus, reparte a condução de seu povo. Deus é rei (dos céus). Rei é Deus (da terra).

Ora. Vossa Majestade por meus sonhos?! Menino, corri pelos espaços. Soltos cabelos de anjo pelos campos de futebol. Cidadezinha. Grupo escolar e a rua. Grupo escolar e a bola. E a bola. E a bola. A horta da avó. A entrega da roupa às freguesas. O grupo escolar. A bola. A roupa lavada, passada, às freguesas. Os cuidados com a horta. A venda de verduras. E logo, a bola. A bola. A bola.

Primeiro grande sonho. Via-me nas transmissões radiofônicas. No Pacaembu. No Maracanã. Meu pai ébrio de felicidade. O que ele mais queria. Seu menino louro endiabrado pelos campos de futebol. Infernizando os adversários. Feito Garrincha. Feito Mazola. Feito Pelé (Esse menino é craque. Esse menino é cobra. Esse menino vai ser grande). Sonho obsessivo. Cresceu com a adolescência. Envaideceu-se na juventude. Contudo, realizou-se nas várzeas. Craque de futebol amador.

Então, aconteceram os estudos. O sonho novo. Grande contabilista. Dirigir os destinos contábeis de empresa de renome. Chegar a auditor. As auditorias célebres sob meu tirocínio.

Entanto, certa feita, caí nas garras da poesia. Um libreto de Castro Alves. Navio negreiro ("Stamos em pleno mar.../Doudo no espaço/Brinca o luar --- doirada borboleta").

O futebol, firme pelas várzeas. O contabilista-auditor, um equívoco. E as leituras sucederam-se. As muitas leituras. As infindas leituras. As inesgotáveis leituras. Quando nem bem vi, o poeta. Faminto poeta. Fazendo-se com seus poemas. E um poeta por todo o sempre teima ("Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!").

O poeta, afligem-no os seus demônios. Instiga-o os desenganos. Angustia-o o seu cotidiano. O poeta precisa, com sua dor, gerar encantos.I

Então, poema não são sonhos. O poeta pensa o mundo que o emociona. E vislumbra mudanças. Suas utopias apontam saídas. Discutíveis. Nada dignas de realeza. Nem de sangue azul. Tampouco de divindades.

É João Batista com seus gafanhotos que o aniquilam. É cigarra. Cujo estouro converte-se em casca. Logo, não há sonhos. Há devaneios. Liberdade que dá à linguagem inquietude e escavação. Que lhe insufla miragens.

A isso, Majestade, não se chama sonho. Chama-se, sim, realidade. E a isso, Majestade, não há reino que pague.



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