Teus sonhos por meu reino. Um reino! Reinado
pressupõe rei. Servis. Salamaleques e acatamentos.
Manda o rei. Cumprem os súditos. Os vassalos.
O arbítrio. A palavra de ordem anunciada.
Cumpra-se. Sua Majestade assim decretou. E se um reino de
rei benevolente, muito melhor. Reinado cujo rei prime por
pão e circo. À fome de meu povo, o pão.
O peixe. A sopa. A Casa de Misericórdia Real aos pobres.
Nada, entretanto, de vagabundagem. O lema
de meu reino é trabalho.E os tributos à saúde
do rei implicam saúde do reino. Sua piedade se difunda.
Sua generosidade. Contudo, jamais provocar sua ira. Rei irado,
"fé cega, faca amolada". Sua vontade, uma
ordem. Em suas veias corre sangue azul. Azul do céu.
Azul do mar. Toda possessão lhe vem dos céus.
Senhor absoluto. Com Deus, reparte a condução
de seu povo. Deus é rei (dos céus). Rei é
Deus (da terra).
Ora. Vossa Majestade por meus sonhos?! Menino,
corri pelos espaços. Soltos cabelos de anjo pelos campos
de futebol. Cidadezinha. Grupo escolar e a rua. Grupo escolar
e a bola. E a bola. E a bola. A horta da avó. A entrega
da roupa às freguesas. O grupo escolar. A bola. A roupa
lavada, passada, às freguesas. Os cuidados com a horta.
A venda de verduras. E logo, a bola. A bola. A bola.
Primeiro grande sonho. Via-me nas transmissões
radiofônicas. No Pacaembu. No Maracanã. Meu pai
ébrio de felicidade. O que ele mais queria. Seu menino
louro endiabrado pelos campos de futebol. Infernizando os
adversários. Feito Garrincha. Feito Mazola. Feito Pelé
(Esse menino é craque. Esse menino é cobra.
Esse menino vai ser grande). Sonho obsessivo. Cresceu com
a adolescência. Envaideceu-se na juventude. Contudo,
realizou-se nas várzeas. Craque de futebol amador.
Então, aconteceram os estudos. O sonho
novo. Grande contabilista. Dirigir os destinos contábeis
de empresa de renome. Chegar a auditor. As auditorias célebres
sob meu tirocínio.
Entanto, certa feita, caí nas garras
da poesia. Um libreto de Castro Alves. Navio negreiro ("Stamos
em pleno mar.../Doudo no espaço/Brinca o luar --- doirada
borboleta").
O futebol, firme pelas várzeas. O contabilista-auditor,
um equívoco. E as leituras sucederam-se. As muitas
leituras. As infindas leituras. As inesgotáveis leituras.
Quando nem bem vi, o poeta. Faminto poeta. Fazendo-se com
seus poemas. E um poeta por todo o sempre teima ("Trabalha,
e teima, e lima, e sofre, e sua!").
O poeta, afligem-no os seus demônios.
Instiga-o os desenganos. Angustia-o o seu cotidiano. O poeta
precisa, com sua dor, gerar encantos.I
Então, poema não são
sonhos. O poeta pensa o mundo que o emociona. E vislumbra
mudanças. Suas utopias apontam saídas. Discutíveis.
Nada dignas de realeza. Nem de sangue azul. Tampouco de divindades.
É João Batista com seus gafanhotos
que o aniquilam. É cigarra. Cujo estouro converte-se
em casca. Logo, não há sonhos. Há devaneios.
Liberdade que dá à linguagem inquietude e escavação.
Que lhe insufla miragens.
A isso, Majestade, não se chama sonho.
Chama-se, sim, realidade. E a isso, Majestade, não
há reino que pague.