A pedra. Decantado mineral. Espanta sua vividez.
Suas veias latejam vida. Rastreiam energias. Substância
nervosa. Vívida de calor. Sua solidez sem igual tão
solitária quanto solidária.
A tudo se entrega a pedra. A começar
pela essência. Nela, se funda, decerto, a consistência
da Terra. A ossatura da Terra. A nervura da Terra. Suas fundações.
Suas pilastras.
E absoluta a sua relação com
os seres. Interagem permanentemente. Mais com o homem. Aos
rios, assegura sua conformação. Aos bichos,
morada natural. Pousada aquecida. Ou refrigerada. Defesa contra
intempéries. Esconderijo contra inimigos. A pedra tem
com eles o mais vivo contato. A perpetuação
de diálogos tácitos.
Certo, mudam-se as roupagens. O corte. O traçado.
A decoração. A espessura. Sim. Contudo, a substância
não transmuta. Tudo é pedra absoluta.
Mas sim. É com o homem a sua maior
interação. A ponto de ele a decompor. Para depois
a recompor onde lhe aprouver. A pedra bruta desmilingúi-se.
Para ser refeita como argamassa. Concreto. Cimento armado
Sua recomposição tecnológica. Pedra transformada.
Para servir o homem. A relação mais viva. Mais
intensa. A pedra moldando-se ao homem. As cidades são
pedras. Os prédios. Os pisos. As praças. As
calçadas. As ruas. Os viadutos. Os estádios
com suas arquibancadas. A pedra compõe. A pedra modela.
A pedra adorna. É matéria a que o homem definitivamente
se apegou. Tanto que concebeu o tijolo, a telha, o azulejo
com a mais aproximada consistência dela possível.
Ainda muito pra lá da servidão
à infra-estrutura. A pedra é também superestrutura.
Dá-se aos adornos. Os ornamentos. Os enfeites ao corpo
humano. As preciosas pedras. Tão chãs. Tão
da Terra. Tão de todos. Porque terra. Contudo, o homem
as transforma valiosíssimas. Cujas somas evidenciam
os desníveis sociais.
Certo. A técnica a despersonaliza,
quanto mais preciosidade lhe confere. Que a pedra, por mais
rígida, é sempre viva. Porosidade feito à
da pele. Respira. O que a técnica por completo lhe
retira. Deixa-a uma morta-viva. Para que o homem, a mulher
brilhem.
A pedra, objeto e símbolo da poesia.
A substância pedra fundamentando o melhor da poesia
cabralina. A pedra de Drummond no meio do caminho. A pedra
Pedro. Pescada para a base da doutrina de Cristo. Os muitos
Pedros Homens anônimos. E notáveis. Alguns vis.
Outros pétreos.
E agora Pedro, neto. Que bem-vindo seja à
vida. E nela permaneça sendo mais uma lájea
viva.