Quase nada. E era tudo. O precário,
agora. Ontem designado de simplicidade. Modesto. O pouco bastava.
À fome, matava-a a mandioca. Do quintal. As verduras.
Os legumes. Qualquer coisa pouca bastava. As frutas silvestres.
A pesca. Simples. Uma vara de anzol. A minhoca. Massa de pão.
No piquá os generosos lambaris. As traíras.
Qualquer córrego. Pesca boa. A caça vária.
De fome não se morria. Por aqui, pelo
menos. A praga implacável que abate no Nordeste é
outra história. As águas naturais. Potáveis.
Poluição, palavra armazenada. A regularidade
da chuva.
A escola escassa. Mas quando havia, muito
boa. Mesmo a da roça. Com as quatro séries reunidas.
A professora única. Concomitantemente lidando com os
diferentes.
A infância. Por menos que fosse, operosa.
Grassava a generosidade. O homem parecia menos predador. Certo,
havia-o Muito, muito menos, contudo. À natureza bruta,
pouco lhe fizera ainda esse animal. Mas o tempo cresceu-o.
Fê-lo multiplicar-se. E a quantidade mais o foi deteriorando.
Ficou consumista. Sofisticou-se. Daí ao supérfluo.
Ao artificialismo.
A infância solta pelas ruas. Saudável.
Respeitavam-na os transeuntes. Os quais pelas ruas iam destemidos.
Fiados na pacatez da vida. Aquelas crianças ali brincavam.
Cresciam. Iam construindo o seu ser. Sob seus olhos de homens.
Segurados pela quase desambição de vida. Viver
o seu tempo de modéstia. Vida pacata. Povoada de sonhos.
De imaginações. Olhar o outro quase sem cobiça.
Seguradores daquela infância viçosa. Futura.
Certamente, não se imaginava no que
viria. A bandidagem como escola. A violência ao brinquedo.
O assassínio ao sorriso aberto. Ingênuo. Frágil.
Súplice. Nas mãos, não guloseimas. Não
singelos brinquedos. Rudes, mas suscitadores. Não.
Levam nelas uma arma. A arma que lhes impõe a exploração.À
qual facilita o abandono. A miséria. Manejam-na com
a habilidade com que ontem se manejava a bolinha de gude.
O bilboquê Infâncias.