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Infâncias
Data 18/dez/2000

Quase nada. E era tudo. O precário, agora. Ontem designado de simplicidade. Modesto. O pouco bastava. À fome, matava-a a mandioca. Do quintal. As verduras. Os legumes. Qualquer coisa pouca bastava. As frutas silvestres. A pesca. Simples. Uma vara de anzol. A minhoca. Massa de pão. No piquá os generosos lambaris. As traíras. Qualquer córrego. Pesca boa. A caça vária.

De fome não se morria. Por aqui, pelo menos. A praga implacável que abate no Nordeste é outra história. As águas naturais. Potáveis. Poluição, palavra armazenada. A regularidade da chuva.

A escola escassa. Mas quando havia, muito boa. Mesmo a da roça. Com as quatro séries reunidas. A professora única. Concomitantemente lidando com os diferentes.

A infância. Por menos que fosse, operosa. Grassava a generosidade. O homem parecia menos predador. Certo, havia-o Muito, muito menos, contudo. À natureza bruta, pouco lhe fizera ainda esse animal. Mas o tempo cresceu-o. Fê-lo multiplicar-se. E a quantidade mais o foi deteriorando. Ficou consumista. Sofisticou-se. Daí ao supérfluo. Ao artificialismo.

A infância solta pelas ruas. Saudável. Respeitavam-na os transeuntes. Os quais pelas ruas iam destemidos. Fiados na pacatez da vida. Aquelas crianças ali brincavam. Cresciam. Iam construindo o seu ser. Sob seus olhos de homens. Segurados pela quase desambição de vida. Viver o seu tempo de modéstia. Vida pacata. Povoada de sonhos. De imaginações. Olhar o outro quase sem cobiça. Seguradores daquela infância viçosa. Futura.

Certamente, não se imaginava no que viria. A bandidagem como escola. A violência ao brinquedo. O assassínio ao sorriso aberto. Ingênuo. Frágil. Súplice. Nas mãos, não guloseimas. Não singelos brinquedos. Rudes, mas suscitadores. Não. Levam nelas uma arma. A arma que lhes impõe a exploração.À qual facilita o abandono. A miséria. Manejam-na com a habilidade com que ontem se manejava a bolinha de gude. O bilboquê Infâncias.



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