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Desterro
Data 03/dez/2000

Completamente livre. Senhor de mim. Maior que todas as vaidades. Menor que todas as humildades. Tomar de mim. Olhar-me nos olhos. Dizer-me: és. E me farei eu. Para minha redenção. E a redenção deles.

Tomar nas mãos o encanto. Banhar-me dele. E ir aurando meu brilho. Afetando os imbróglios. Desarmando os ódios. Ter sempre a dor presa às mãos para o meu domínio. Com ela aponto as virtudes. São tantas. E tão nefastas. Virtudes perdem os homens. Virtudes moldam os homens. Virtudes santificam os homens.E aponto os defeitos. Defeitos revelam os homens. Defeitos despojam amores. Defeitos perdem os homens.

Descortinar os meandros inatingíveis. Apenas acionando o meu desassossego. Partilhar com aqueles mendigos minha indignação. E dizer-lhes do meu ódio às suas necessidades.

Não indagar. Deixar que as verdades máximas continuem blasfemando. Blasfemem, verdades. Blasfememos com nossas verdades. Elas demandam a ventres disformes. Insaciáveis. Prontos a digeri-las. Prontos a remoê-las. Ainda que as concebam como mentirosas. Verdades são mentiras instituídas.

Nenhum definitivo. Todas as instâncias reacesas. A esperança rejuvenesce. O sorriso à toa sem mais razão. Razões desagradam fisionomias insólitas. Mas lhes dão a placidez da bonomia.

O indefinitivo consolida o imponderável. Astúcia de Deus. Entanto, reina o mistério do cosmo. Estrelas indiciam caminhos. Enigmas. Conquanto, súbito, vários, rastreados, têm sentenças científicas.

A putrefação que paira sobre meus ombros. Borrifar-lhe meus desgostos. Com as cavas fundas das minhas estrias dardeá-la. Afugenta-la com pão imprescindível a essa fome crônica. A essa fome agônica. A essa fome-vergonha.

Meu medo é o meu grande bem. Com ele, mais nada. Com ele apenas desarmo meus inimigos. Ofereço-lhes minhas virtudes. Meus defeitos. E mais lhes ofertara, lhe direi, se mais houvesse. Pois meu medo me impede de lhes cravar a agonia ácida de minha incompreendida ternura.

Completamente livre. Absoluto senhor de mim. Invadir o âmago das arrogâncias. E torná-las humanas. Tomar destas mãos. Impregná-las de minha realidade e ir ao encontro de teus sonhos. Que se enunciam naquela estrela aberta em brilhos.



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