O lume dos vaga-lumes treslume. Treslume.
Treslume. Muitos mil lumes. Acende-apaga. Acende-apaga. Ali.
Lá. Acolá.
A noite. Esse vácuo. Buraco único.
Sem começo. Nem fundo. Nem lado. Desnorteado espaço
pipocado de frágil lume meio esverdeado acende-apagando.
Nem céu: suas luminárias impedidas. Mas também
nem chuva. E nem relâmpagos longe dizendo onde fica
o horizonte. Um nonada. Mais que o de Riobaldo.
E o rio não baldado. A canoa com sua
poita. E os lumes vaga-lumes treslumem. Diz que os machos
exibem às fêmeas seu penacho. As fêmeas,
não-voluntariosas. Exigentes. Escolhendo.
E os muitos barulhos que o ventre invisível
da noite conduz. O que dá a quem está sua consciência.
Tranqüiliza-se. Por se saber não perdido. Ameniza
o receio. O sentir-se indefeso. Conquanto certos deles resultem
arrepios.
O nítido grilar de um guizo a silvar
sorrateiro. Patas selvagens farfalhando a água que
veio beber. O sorvo se escuta. E indicia o tamanho. Os risos
sinistros das corujas. Guinchos de bichos não claros.
Galos por trás da mata cumprindo seu destino. Longínquos
parecem. Também do longe vem os dos veículos.
Os muitos cricris espalhados dos grilos grilando bem perto.
A noite. É toda túmida. E indefinitiva.
Nela cabe sempre o inesperado. Sua prole é desconsangüínea.
Há muitos desperta. As formigas optam preferencialmente
pela calada da noite. Os ratos. E os vaga-lumes treslumem.
Treslumem. Exibicionismo explícito. E as fêmeas
se fecham ante a disputa voluntariosa. A saparia se enturma
em seu batraquismo orquestral. Os muitos sapos. A sorte das
cobras. Que eles não suportam o encanto da peçonha
delas.
A negra noite se aviando com seus bichos e
homens dormindo. Com seus bichos e homens agindo. E a natureza
a tudo sustentando. E vendo. Súbito, dois brilhos sutis.
Deslizando quase imersos na pele da água. Algum animal
na sua lida. Travessia: rio baldando. Ou caça.
O barco apoitado. O grande rio. A quem desobrigado
da pesca a noite é viva. Conquanto traga em si o sono.
Os lumes dos vaga-lumes treslumem. Os cricris da grilagem.
O berro da suçuarana. O batraquismo dos sapos. Os sinistros
risos das corujas. O diálogo dos galos. Os ladridos
dos cães. E a natureza a tudo sustentando e vendo.