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Data 15/nov/2000

O lume dos vaga-lumes treslume. Treslume. Treslume. Muitos mil lumes. Acende-apaga. Acende-apaga. Ali. Lá. Acolá.

A noite. Esse vácuo. Buraco único. Sem começo. Nem fundo. Nem lado. Desnorteado espaço pipocado de frágil lume meio esverdeado acende-apagando. Nem céu: suas luminárias impedidas. Mas também nem chuva. E nem relâmpagos longe dizendo onde fica o horizonte. Um nonada. Mais que o de Riobaldo.

E o rio não baldado. A canoa com sua poita. E os lumes vaga-lumes treslumem. Diz que os machos exibem às fêmeas seu penacho. As fêmeas, não-voluntariosas. Exigentes. Escolhendo.

E os muitos barulhos que o ventre invisível da noite conduz. O que dá a quem está sua consciência. Tranqüiliza-se. Por se saber não perdido. Ameniza o receio. O sentir-se indefeso. Conquanto certos deles resultem arrepios.

O nítido grilar de um guizo a silvar sorrateiro. Patas selvagens farfalhando a água que veio beber. O sorvo se escuta. E indicia o tamanho. Os risos sinistros das corujas. Guinchos de bichos não claros. Galos por trás da mata cumprindo seu destino. Longínquos parecem. Também do longe vem os dos veículos. Os muitos cricris espalhados dos grilos grilando bem perto.

A noite. É toda túmida. E indefinitiva. Nela cabe sempre o inesperado. Sua prole é desconsangüínea. Há muitos desperta. As formigas optam preferencialmente pela calada da noite. Os ratos. E os vaga-lumes treslumem. Treslumem. Exibicionismo explícito. E as fêmeas se fecham ante a disputa voluntariosa. A saparia se enturma em seu batraquismo orquestral. Os muitos sapos. A sorte das cobras. Que eles não suportam o encanto da peçonha delas.

A negra noite se aviando com seus bichos e homens dormindo. Com seus bichos e homens agindo. E a natureza a tudo sustentando. E vendo. Súbito, dois brilhos sutis. Deslizando quase imersos na pele da água. Algum animal na sua lida. Travessia: rio baldando. Ou caça.

O barco apoitado. O grande rio. A quem desobrigado da pesca a noite é viva. Conquanto traga em si o sono. Os lumes dos vaga-lumes treslumem. Os cricris da grilagem. O berro da suçuarana. O batraquismo dos sapos. Os sinistros risos das corujas. O diálogo dos galos. Os ladridos dos cães. E a natureza a tudo sustentando e vendo.



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