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Essas coisas
Data 30/out/2000

Sábado. Fim de semana. Agora, folgar. Em casa, banho tomado. A cerveja. Merecida. A semana inteira, noitinha pedindo luz elétrica. Até dar por findo o dia. Que já ficara noite.

Paixão por isto. Por isso, dia findo, vai bem. A paz do bom trabalho. Enche-se de orgulho. Guardado. Orgulho somente seu. Nada de propalá-lo feito convencido. Ridículo. É coisa pro gasto.
É bom. É necessário. Vêm-lhe lições do pai. Gosto de fazer o que faz. Fazer o que faz com gosto. Bom pra todo mundo. O freguês sente. Gosta. Pega confiança. Espalha pros outros. E o trabalho sempre correndo atrás da gente. E nós, cheios. Imagine o sujeito com loja à mosca. Despesa e despeito. Trabalho muito tá dizendo que a gente é bom. Isso paga tanto quanto o dinheiro. Na verdade, mais. Porque dinheiro, preço sempre espinham. Um ao outro. O pai.

Sim. Também o orgulho era aquilo. Coisa de herança. Orgulho maior com as ponderações. Sucessão comum dá-se com fortuna. Não com ofício de sapateiro.

Entanto, enchiam o peito. Do avô ao pai. Do pai a ele. Pensava em cessar. Cerrar as portas com ele. Quando não mais servisse. Afinal, o tempo é outro. Computador substituindo correio!

Consertos. Pequenas confecções. Chinelos. Sapatões. Bico fino. Carrapeta. Encomendas muitas. Daí a noite encontrando-o sempre no pé-de-ferro.

Justo que o filho, não. Todo ciclo também termina. Mas o deles tinha muito ainda. Estava na força. Reconfortado. Sabia-se como o fim. Já se entendera com o pai e o avô. Mortos-vivos dignos de atenção.

Então, ir tocando. Banho tomado. Petiscos. A cerveja. Quando então escorria pelos jornais. Semana boa. A surpresa de dona Célia. Os sapatos que julgara perdidos, novos. Incrível! O capricho às sandálias para o Fermino. As botas para o capataz Hermelindo. Ele brilhava nos olhos. Satisfações mútuas. E os muitos, muitos consertos. Meias-solas. Saltos. Uma profusão.

Reconfortado. O trabalho dignifica. Apazigua. Fazia bem a si. E aos outros. Então, a justa cerveja. Descanso abençoado. Recesso revigorante. O jornal da cidade. Uma notícia do que nem soubera. A cidade, pacata, fizera festa. Recepção própria a heróis. Caminhão de bombeiros com sirenes acionadas. Um seu atleta viera das Olimpíadas com bronze no peito.

Encafifou. Foi ao jornal maior. Depois pegou um filme. A cerveja, devagar e sempre. Entanto, não conseguia livrar-se do bronze. Da festa. Do desfile em carros de bombeiros.



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