Sábado. Fim de semana. Agora, folgar.
Em casa, banho tomado. A cerveja. Merecida. A semana inteira,
noitinha pedindo luz elétrica. Até dar por findo
o dia. Que já ficara noite.
Paixão por isto. Por isso, dia findo,
vai bem. A paz do bom trabalho. Enche-se de orgulho. Guardado.
Orgulho somente seu. Nada de propalá-lo feito convencido.
Ridículo. É coisa pro gasto.
É bom. É necessário. Vêm-lhe lições
do pai. Gosto de fazer o que faz. Fazer o que faz com gosto.
Bom pra todo mundo. O freguês sente. Gosta. Pega confiança.
Espalha pros outros. E o trabalho sempre correndo atrás
da gente. E nós, cheios. Imagine o sujeito com loja
à mosca. Despesa e despeito. Trabalho muito tá
dizendo que a gente é bom. Isso paga tanto quanto o
dinheiro. Na verdade, mais. Porque dinheiro, preço
sempre espinham. Um ao outro. O pai.
Sim. Também o orgulho era aquilo. Coisa
de herança. Orgulho maior com as ponderações.
Sucessão comum dá-se com fortuna. Não
com ofício de sapateiro.
Entanto, enchiam o peito. Do avô ao
pai. Do pai a ele. Pensava em cessar. Cerrar as portas com
ele. Quando não mais servisse. Afinal, o tempo é
outro. Computador substituindo correio!
Consertos. Pequenas confecções.
Chinelos. Sapatões. Bico fino. Carrapeta. Encomendas
muitas. Daí a noite encontrando-o sempre no pé-de-ferro.
Justo que o filho, não. Todo ciclo
também termina. Mas o deles tinha muito ainda. Estava
na força. Reconfortado. Sabia-se como o fim. Já
se entendera com o pai e o avô. Mortos-vivos dignos
de atenção.
Então, ir tocando. Banho tomado. Petiscos.
A cerveja. Quando então escorria pelos jornais. Semana
boa. A surpresa de dona Célia. Os sapatos que julgara
perdidos, novos. Incrível! O capricho às sandálias
para o Fermino. As botas para o capataz Hermelindo. Ele brilhava
nos olhos. Satisfações mútuas. E os muitos,
muitos consertos. Meias-solas. Saltos. Uma profusão.
Reconfortado. O trabalho dignifica. Apazigua.
Fazia bem a si. E aos outros. Então, a justa cerveja.
Descanso abençoado. Recesso revigorante. O jornal da
cidade. Uma notícia do que nem soubera. A cidade, pacata,
fizera festa. Recepção própria a heróis.
Caminhão de bombeiros com sirenes acionadas. Um seu
atleta viera das Olimpíadas com bronze no peito.
Encafifou. Foi ao jornal maior. Depois pegou
um filme. A cerveja, devagar e sempre. Entanto, não
conseguia livrar-se do bronze. Da festa. Do desfile em carros
de bombeiros.