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Voz texto
Data 25/out/2000

O fio da tua voz evolando fluidos. Do seu ventre a luz espargida estampando o espaço. Seu fio imiscuindo. Tomando os ouvidos. Embevecendo os espíritos. A alma da tua voz magnetizando o espaço.

Os sentidos nela firmados. Como se nada mais fizesse sentido. Tua voz indo. Mas não passando. Indo. Todavia ficando. Não se fazia por sussurros. Parecia não articulada também. Voz dizendo tudo de que nada se percebesse.

E se sabia perfeitamente a que se fazia. Tinham-na como algo programado. Acontecimento previsto. Contudo, foi como céu negro se descortinando. A luz da tua voz infiltrando-se no coração dos outros.

Viva. Maviosa. O verbo de sua massa parecia inarticulado. Talvez versos. Não precisos. Sem metro. Brancos. Distensos. É que a consistência deles pululava em sua fina massa sonora. A melodia apenas bastava para acender. E incandescia. Tudo ficava impregnado de sua luz. Tíbia luz visível. A força sua, no efeito.

Mansa, tua voz tinha gestos de bênçãos. E tudo se tomava de um estado epifânico. Puro enlevo. A inebriação cingia a todos de profundo recolhimento. Absoluta unção. E tinham plena consciência do que se dava. Sabiam do estado evanescente a que os induzia tua voz. E se deixavam estar. Fazia-lhes um bem indescritível. Nada parecia ter sido antes.

E tua voz modulava metódica. Melódica. Elaborando-se texto não perceptível. No nível lógico. Inteligível, talvez. Não no sensível. O texto se insinuando. Penetrando-os desde a epiderme. Introjetando-se pelo sangue. Disparando adrenalinas. Certo, que o ambiente era propício. Certo, que a atmosfera contribuía. Certo, principalmente tua voz. Entretanto, o texto tinha beleza. O texto dava consistência à voz de aparência não vibrátil. Ou de timbre pouco distinguível. Mas inebriante. Sedutora.

E a precariedade de tudo era consabida. Coisa de minutos. Ninguém ignorava. Declamação condigna não vai além. Tudo prestes a se acabar. O efêmero tempo dessas coisas. O texto ia ao fim. Tua voz desapareceria.

Nisto, talvez, consistisse um certo resíduo de angústia. Perder o inconquistável. O texto beirando ao fim. Ia tomando a consistência do nada. Do vazio. Tudo tornaria a ser outrora. Tua voz seria memória. Dela não se poderia olvidar. Voz benfazeja para quando em tormentos a alma.



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