O fio da tua voz evolando fluidos. Do seu
ventre a luz espargida estampando o espaço. Seu fio
imiscuindo. Tomando os ouvidos. Embevecendo os espíritos.
A alma da tua voz magnetizando o espaço.
Os sentidos nela firmados. Como se nada mais
fizesse sentido. Tua voz indo. Mas não passando. Indo.
Todavia ficando. Não se fazia por sussurros. Parecia
não articulada também. Voz dizendo tudo de que
nada se percebesse.
E se sabia perfeitamente a que se fazia. Tinham-na
como algo programado. Acontecimento previsto. Contudo, foi
como céu negro se descortinando. A luz da tua voz infiltrando-se
no coração dos outros.
Viva. Maviosa. O verbo de sua massa parecia
inarticulado. Talvez versos. Não precisos. Sem metro.
Brancos. Distensos. É que a consistência deles
pululava em sua fina massa sonora. A melodia apenas bastava
para acender. E incandescia. Tudo ficava impregnado de sua
luz. Tíbia luz visível. A força sua,
no efeito.
Mansa, tua voz tinha gestos de bênçãos.
E tudo se tomava de um estado epifânico. Puro enlevo.
A inebriação cingia a todos de profundo recolhimento.
Absoluta unção. E tinham plena consciência
do que se dava. Sabiam do estado evanescente a que os induzia
tua voz. E se deixavam estar. Fazia-lhes um bem indescritível.
Nada parecia ter sido antes.
E tua voz modulava metódica. Melódica.
Elaborando-se texto não perceptível. No nível
lógico. Inteligível, talvez. Não no sensível.
O texto se insinuando. Penetrando-os desde a epiderme. Introjetando-se
pelo sangue. Disparando adrenalinas. Certo, que o ambiente
era propício. Certo, que a atmosfera contribuía.
Certo, principalmente tua voz. Entretanto, o texto tinha beleza.
O texto dava consistência à voz de aparência
não vibrátil. Ou de timbre pouco distinguível.
Mas inebriante. Sedutora.
E a precariedade de tudo era consabida. Coisa
de minutos. Ninguém ignorava. Declamação
condigna não vai além. Tudo prestes a se acabar.
O efêmero tempo dessas coisas. O texto ia ao fim. Tua
voz desapareceria.
Nisto, talvez, consistisse um certo resíduo
de angústia. Perder o inconquistável. O texto
beirando ao fim. Ia tomando a consistência do nada.
Do vazio. Tudo tornaria a ser outrora. Tua voz seria memória.
Dela não se poderia olvidar. Voz benfazeja para quando
em tormentos a alma.