Por mais que derruído esteja. Sua imagem
se guarda, como se estátua. Altivo. Porte magno. Na
sua imponente quietude. Dócil e indômito em sua
relação com o homem. Rara espécie de
quadrúpede, cuja beleza é perfeita. Não
há quem com ele não se simpatize. É mesmo
cativante. Tanto a negociantes: muitos e nominados. Quanto
a amadores: muitíssimos e anônimos.
Espectro modelar de virilidade animal. Proporcionalidade
impecável. A sua não ferocidade. A mínima
selvageria. Foram extraindo-o do habitat natural. Capturado
para trabalhar. Forçado a servir-se ao homem. Com o
boi, talvez, partilha servidão animalesca sem igual.
A tudo a que a força humana se viu pequena.
Ao cultivo da terra, o seu emprego. O arado
que lhe encilhavam (há disso ainda?). O cavalo servindo
a guerreiros embebidos de medo e ódio. Cavalo, automóvel
individual aos bacanas ("Automóvel lá nem
se sabe se é homem, ou se é mulher./ Quem é
rico anda em burrico/ quem é pobre anda a pé".)
Cavalo para a sege. Cavalo para o tílburi. Cavalos
para o coche. Essas carruagens a serviço de senhores.
Depois, o cavalo para as charretes.
O gado varando as estradas boiadeiras. Tangidos
pela pungência do berrante. Pelo dó de peito:
aboio do vaqueiro. E tocando a boiada, o cavalo. Extensão
do vaqueiro. Certamente, não haveria vaqueiro, se não
houvesse o cavalo.
Os cavalos dos mocinhos e dos bandidos de
John Ford. Os cavalos das diligências levando pessoas
e ouro: cobiça dos bandoleiros.
O branco cavalo de Napoleão. O cavalo
de São Jorge. O cavalo de Pedro I, no Grito do Ipiranga,
de Pedro Américo. Os Cavalos Saindo do Mar, de Delacroix.
Caballo ciego masticando um teléfono, de Dali. E Baloubet
du Rouet negando três vezes traspor o obstáculo
no hipismo de Sydney 2000, para enorme consternação
de Rodrigo Pessoa e desolação dos brasileiros.
Esfusiantes. Estupefantes. Cavalos.
Já o homem vai descartando o cavalo.
Mais e mais. Talvez o cavalo viva para si. No pasto. Com sua
liberdade e beleza. Tomara. Que, posto que não tanto
quanto o boi, é também carne para nosso repasto.