Home
|
Conheça Tito Damazo
|
Textos
|
Contato
|



Figuras
Data 18/set/2000

O bicho de Manuel Bandeira persiste. E longe de ser extinto. Talvez chafurde menos o lixo. Mas está vivo. E continua homem. E indivíduo. Parece que seu destino é ser sozinho.

Vão sozinhos. Cada um por si. Molambos pontuando por aí. Acompanha-os tão-somente a cachaça. Beber talvez seja o que lhes resta. O álcool anestesia. Aliena. E dispara sobre a tortura da miséria o universo da quimera.

De certo a sobriedade lhes seria fatal. Sóbrios, seriam invadidos pelos fantasmas do real. Vis monstros a anarquizar-lhes a consciência. E a instaurar a dor a que não existe remédio.

O corpo lhes é o grande incômodo. Vai sempre pesado. Conquanto sejam quase todos muito magros. O vazio que lhes vai por dentro, decerto, é chumbo ácido. Vão pejados de nada. Um nada que lhes açambarca o corpo. E já vindo da alma.

Um corpo avesso a água. Mesmo a que bebem é parca. A sede que lhes amarga é outra. E não vêem o que lhe aplaca. Sede de serem, certamente, já nem mais sabem o quê.

A pele é couro que se descasca. Mas não tem o encrespado da escama. Alisa. Brilha. Por certo efeito da cachaça. Manchas. Ou feridas. Que ficam. Embora cada qual chegue a cicatriz. Contudo, a brotoeja é como grama-praga. Não acaba.

Os cabelos. O bigode. A barba. Vão se entrecruzando. Se amalgamando. Num desgrenhamento indescritível. E a sujidade vai lhes impregnando uma coloração enodoada. Baça. Cor de pêlo de ouriço em calma.

Calçado não há que lhes calce. Ainda que se lhes ajustassem. Vão pesados para um pesado caminhar. Quando seja também, porque lhes falte. Entanto, vão melhor de chinela. Chinela de dedo. Basta que lhes protejam a solas. Somente para que o asfalto não lhas queime. Pois se quase nada as fere, a temperatura lhes trespassa facilmente a epiderme.

São mansos. Vão sempre sozinhos. E absortos. Quase nunca pedem. Se, quase nada. Comem muito pouco. Joões batistas, contentam-se com alguns gafanhotos.

Deambulam. Zumbis fugindo de si mesmos. Consigo levam a casa. Vai-lhes encilhada às costas. O guarda-roupa. A cozinha. A despensa. De uma casa, chega. A escassez: muda de roupa; panela, colher e caneco, pão seco, fruta pútrida. Vão acondicionados em uma, duas trouxas muito encardidas. O quarto, armam-no sempre em lugar escondido o mais possível. Protegendo-se dos olhares repreensivos.

Inofensivos. São mendigos. São andarilhos. São citadinos. Ninguém os olha. Embora todo o mundo os vê. É gente indigente. Perdidos na vida. Perdidos da vida. Perdidos pela vida. Farrapos humanos de fracassos. Sua história não se sabe. Sabê-la em nada compraz. São como cães de rua. Vão vadios. Com suas sarnas. E bernes. E pulgas.

Quando no portão, logo se lhes escorraça com um pedaço de pão. Algumas frutas passadas de maduras. E depressa, que fedem a carne humana putrefata.

Um dia a cachaça lhes mata. E a funerária, devidamente paramentada contra contaminações, atira-os numa vala. Para que a terra, por fim, calcine tais pragas.



Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003, Poetagem - www.poetagem.com.br

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético