O bicho de Manuel Bandeira persiste. E longe
de ser extinto. Talvez chafurde menos o lixo. Mas está
vivo. E continua homem. E indivíduo. Parece que seu
destino é ser sozinho.
Vão sozinhos. Cada um por si. Molambos
pontuando por aí. Acompanha-os tão-somente a
cachaça. Beber talvez seja o que lhes resta. O álcool
anestesia. Aliena. E dispara sobre a tortura da miséria
o universo da quimera.
De certo a sobriedade lhes seria fatal. Sóbrios,
seriam invadidos pelos fantasmas do real. Vis monstros a anarquizar-lhes
a consciência. E a instaurar a dor a que não
existe remédio.
O corpo lhes é o grande incômodo.
Vai sempre pesado. Conquanto sejam quase todos muito magros.
O vazio que lhes vai por dentro, decerto, é chumbo
ácido. Vão pejados de nada. Um nada que lhes
açambarca o corpo. E já vindo da alma.
Um corpo avesso a água. Mesmo a que
bebem é parca. A sede que lhes amarga é outra.
E não vêem o que lhe aplaca. Sede de serem, certamente,
já nem mais sabem o quê.
A pele é couro que se descasca. Mas
não tem o encrespado da escama. Alisa. Brilha. Por
certo efeito da cachaça. Manchas. Ou feridas. Que ficam.
Embora cada qual chegue a cicatriz. Contudo, a brotoeja é
como grama-praga. Não acaba.
Os cabelos. O bigode. A barba. Vão
se entrecruzando. Se amalgamando. Num desgrenhamento indescritível.
E a sujidade vai lhes impregnando uma coloração
enodoada. Baça. Cor de pêlo de ouriço
em calma.
Calçado não há que lhes
calce. Ainda que se lhes ajustassem. Vão pesados para
um pesado caminhar. Quando seja também, porque lhes
falte. Entanto, vão melhor de chinela. Chinela de dedo.
Basta que lhes protejam a solas. Somente para que o asfalto
não lhas queime. Pois se quase nada as fere, a temperatura
lhes trespassa facilmente a epiderme.
São mansos. Vão sempre sozinhos.
E absortos. Quase nunca pedem. Se, quase nada. Comem muito
pouco. Joões batistas, contentam-se com alguns gafanhotos.
Deambulam. Zumbis fugindo de si mesmos. Consigo
levam a casa. Vai-lhes encilhada às costas. O guarda-roupa.
A cozinha. A despensa. De uma casa, chega. A escassez: muda
de roupa; panela, colher e caneco, pão seco, fruta
pútrida. Vão acondicionados em uma, duas trouxas
muito encardidas. O quarto, armam-no sempre em lugar escondido
o mais possível. Protegendo-se dos olhares repreensivos.
Inofensivos. São mendigos. São
andarilhos. São citadinos. Ninguém os olha.
Embora todo o mundo os vê. É gente indigente.
Perdidos na vida. Perdidos da vida. Perdidos pela vida. Farrapos
humanos de fracassos. Sua história não se sabe.
Sabê-la em nada compraz. São como cães
de rua. Vão vadios. Com suas sarnas. E bernes. E pulgas.
Quando no portão, logo se lhes escorraça
com um pedaço de pão. Algumas frutas passadas
de maduras. E depressa, que fedem a carne humana putrefata.
Um dia a cachaça lhes mata. E a funerária,
devidamente paramentada contra contaminações,
atira-os numa vala. Para que a terra, por fim, calcine tais
pragas.