Feliz. Consigo. Com as homenagens. A realização
do homem pelo trabalho. Trabalho é trabalho. Os estereótipos
a se mirar. O trabalho dignifica. Ganhar o pão da vida
com o suor do seu rosto. O dom do trabalho está para
si. E para o outro. Voltado para a realização
sua e do outro. O trabalho transforma. O trabalho organiza.
Constrói a natureza. O homem.
Esta a lição desde a adolescência.
E estudar. Estudar. Formar-se um profissional. Cujo trabalho
dignificaria a si e à sua sociedade. Este o fim precípuo
da vida. O trabalho preserva e transforma o homem. O trabalho
transforma e preserva a natureza.
Assim se passara sua vida de moço.
As prédicas do pai norteando-a Prédicas reiteradas
nas escolas. Pelos professores do primário. Pelos professores
do secundário. Na universidade não fora muito
diferente. Nela é que as prédicas foram tomando
corpo. O sentido abrindo-se em horizontes.
E o trabalho nunca mais deixou de ser estudos.
Os estudos exaustivos. As buscas. Os experimentos. As hipóteses.
As discussões. Os debates. Os congressos. As aulas.
A convivência prazerosa, realizadora com seus alunos.
Se projetos havia, eles se constituíam
nisso. Lecionar. Pesquisar. Acompanhar a evolução
da ciência. Da tecnologia. Ir tocando a vida. Aceitando-a
com sua presença real. Com suas transformações.
A instauração da internet pela informática.
A medicina melhorando a qualidade de vida. O viagra. A clonagem.
Os transplantes. A jovialidade, uma busca geral. Um luta por
maior permanência. O envelhecimento sendo postergado.
Os exercícios físicos incentivados. Prescritos.
As mudanças corporais: plásticas, lipos. Um
sim quase uníssono do homem à prolongação
da vida. Saudável Sensual. Atraente. Prazerosa.
Gostava. Aquele projeto da pílula da
juventude, trouxera-o a todas as chaves. A mulher apenas o
sabia. Entusiasmava-o muito. Vibrava com o avanço positivo
dos seus experimentos. Tinha que dividi-lo com alguém.
Impossível comemorá-lo sozinho. Ainda assim
a mulher sabia generalidades.
Quando decidiu-se pelos testes com pessoas,
tinha absoluta convicção de que não havia
erros. A novidade tomou conta de tudo. Causou comoções.
Espanto. Dúvidas. Incredulidades. Houve mesmo acusações
de que cometia sacrilégio.
Era natural tudo aquilo. De certo modo previra
e esperara que seria assim, quando desse-o a público.
Contudo, era um cientista. Tudo fizera documentado. Passo
a passo. As provas, os fatos, as "testemunhas-cobaia"
eram reais. Vivos. Logo, irrefutáveis. Nenhuma doença,
nem o câncer. Nenhum vírus, nem a aids. Quem
tomasse a pílula, conforme a prescrição,
tinha mais dez anos de vida assegurados. Era uma revolução
sem precedentes. Ele conseguira. Trinta anos depois! E ele
mesmo já a estava tomando.
A festa foi, pois, linda. Comendas. Homenagens.
Nacionais Internacionais. Enfim. Agora, cabia tocar em frente.
Viver mais e presenciar os outros fazendo o mesmo.
Já o dia amanhecia. Hora passada de
recolher-se. O portão basculante estava se erguendo.
Os bandidos surdiram. Queriam o carro e dinheiro. Entregou-os.
E mais. Estava completamente tomado da alegria. Da generosidade.
Pediu aos bandidos que esperassem. Daria a eles também,
de lambugem, pílulas da vida. E foi abrindo o paletó,
enfiando a mão no bolso de dentro onde estava a caixinha
de cápsulas.
E três tiros na cabeça prostraram-no
na calçada. Enquanto seu ômega zarpava cantando
os pneus.