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Desfecho
Data 11/set/2000

Feliz. Consigo. Com as homenagens. A realização do homem pelo trabalho. Trabalho é trabalho. Os estereótipos a se mirar. O trabalho dignifica. Ganhar o pão da vida com o suor do seu rosto. O dom do trabalho está para si. E para o outro. Voltado para a realização sua e do outro. O trabalho transforma. O trabalho organiza. Constrói a natureza. O homem.

Esta a lição desde a adolescência. E estudar. Estudar. Formar-se um profissional. Cujo trabalho dignificaria a si e à sua sociedade. Este o fim precípuo da vida. O trabalho preserva e transforma o homem. O trabalho transforma e preserva a natureza.

Assim se passara sua vida de moço. As prédicas do pai norteando-a Prédicas reiteradas nas escolas. Pelos professores do primário. Pelos professores do secundário. Na universidade não fora muito diferente. Nela é que as prédicas foram tomando corpo. O sentido abrindo-se em horizontes.

E o trabalho nunca mais deixou de ser estudos. Os estudos exaustivos. As buscas. Os experimentos. As hipóteses. As discussões. Os debates. Os congressos. As aulas. A convivência prazerosa, realizadora com seus alunos.

Se projetos havia, eles se constituíam nisso. Lecionar. Pesquisar. Acompanhar a evolução da ciência. Da tecnologia. Ir tocando a vida. Aceitando-a com sua presença real. Com suas transformações. A instauração da internet pela informática. A medicina melhorando a qualidade de vida. O viagra. A clonagem. Os transplantes. A jovialidade, uma busca geral. Um luta por maior permanência. O envelhecimento sendo postergado. Os exercícios físicos incentivados. Prescritos. As mudanças corporais: plásticas, lipos. Um sim quase uníssono do homem à prolongação da vida. Saudável Sensual. Atraente. Prazerosa.

Gostava. Aquele projeto da pílula da juventude, trouxera-o a todas as chaves. A mulher apenas o sabia. Entusiasmava-o muito. Vibrava com o avanço positivo dos seus experimentos. Tinha que dividi-lo com alguém. Impossível comemorá-lo sozinho. Ainda assim a mulher sabia generalidades.

Quando decidiu-se pelos testes com pessoas, tinha absoluta convicção de que não havia erros. A novidade tomou conta de tudo. Causou comoções. Espanto. Dúvidas. Incredulidades. Houve mesmo acusações de que cometia sacrilégio.

Era natural tudo aquilo. De certo modo previra e esperara que seria assim, quando desse-o a público. Contudo, era um cientista. Tudo fizera documentado. Passo a passo. As provas, os fatos, as "testemunhas-cobaia" eram reais. Vivos. Logo, irrefutáveis. Nenhuma doença, nem o câncer. Nenhum vírus, nem a aids. Quem tomasse a pílula, conforme a prescrição, tinha mais dez anos de vida assegurados. Era uma revolução sem precedentes. Ele conseguira. Trinta anos depois! E ele mesmo já a estava tomando.

A festa foi, pois, linda. Comendas. Homenagens. Nacionais Internacionais. Enfim. Agora, cabia tocar em frente. Viver mais e presenciar os outros fazendo o mesmo.

Já o dia amanhecia. Hora passada de recolher-se. O portão basculante estava se erguendo. Os bandidos surdiram. Queriam o carro e dinheiro. Entregou-os. E mais. Estava completamente tomado da alegria. Da generosidade. Pediu aos bandidos que esperassem. Daria a eles também, de lambugem, pílulas da vida. E foi abrindo o paletó, enfiando a mão no bolso de dentro onde estava a caixinha de cápsulas.

E três tiros na cabeça prostraram-no na calçada. Enquanto seu ômega zarpava cantando os pneus.



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