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Branco
Data 01/set/2000

O branco do cérebro. Suas rugas em rusgas sob seu lençol. Vazios de quanto soube, tenho-os aqui. E os espio. E os expio. Espinhos de desoras. Espetando as carnes expostas em postas róseo-brancas. Róseo-brancas. Róseo-brancas.

O branco deste papel exigindo atenção. Devorando passivamente feroz a maior dosagem possível de invenção. Castrando feitos. Castrando fatos. Imperiosamente anuviando a memória. Rechaçando recordações. Branco cuja castidade se abre tão-somente ao singular. Textura de página avessa ao impuro. Ao espúrio. Que assim instaura a brancura que busca a custo. E que a custo se nos dá. O branco das obsessões de Cruz e Sousa.

O branco das impurezas de Drummond. O branco do cisne de Sully Prudhomme. O branco-cinza do desespero em Guernica. O branco infernal do narcotráfico. O branco opressor do silêncio. O branco devastador da omissão.

O branco amargo deste perdão repleto de descaso. Despetalando rosas. Despetalando margaridas. Despetalando avencas. Desintegrando açucenas. Esse branco repleto de nada instaurando o medo.

O branco desta pele roçagando os meus pêlos. Acendendo meus relâmpagos. Crispando os dentes dos meus desejos. Alvoroçando as brancas lavas deste vulcão em brasa. O branco manso, inebriante destas mãos espargindo alívios. Despertando encantos.

Ah! As nuvens que se esgarçam. Em vão, espaço afora. Em vão. Como estes sonhos, vão dar em nada. As nuvens desta alvorada. Formando-se rápidas a cada rajada de águas flácidas. Fluidas. E cálidas como estas tuas mãos sábias. Pondo em brancas nuvens minha razão. Espreitando o obscuro branco de espasmos sãos. Despertando. Brancuras de linho em colchão.

O branco da indecisão. Tomando-nos. Engatilhando o pânico ante o enxame ousado de esfinges: devoramos-te! Devoramos-te!.

O branco que a morte deflagra. E nos põe impotentes ante a sua prepotência inexorável. E nos punge. E nos consterna. E nos abandona no deserto de nossas fragilidades. Insulados por horizontes desérticos.

O branco linho desta cambraia. Enxugando lágrimas em que se convertem lástimas. Raivas. Dádivas. O branco da paz embandeirada perdida. Em agonia infinda. Na sua agonia de UTI. Entre o sim e o fim.

O corpo dado aos jasmins. Se possível, passageiro da carruagem dos querubins. Enfim, o branco do lençol. A bênção. Amém.



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