O branco do cérebro. Suas rugas em
rusgas sob seu lençol. Vazios de quanto soube, tenho-os
aqui. E os espio. E os expio. Espinhos de desoras. Espetando
as carnes expostas em postas róseo-brancas. Róseo-brancas.
Róseo-brancas.
O branco deste papel exigindo atenção.
Devorando passivamente feroz a maior dosagem possível
de invenção. Castrando feitos. Castrando fatos.
Imperiosamente anuviando a memória. Rechaçando
recordações. Branco cuja castidade se abre tão-somente
ao singular. Textura de página avessa ao impuro. Ao
espúrio. Que assim instaura a brancura que busca a
custo. E que a custo se nos dá. O branco das obsessões
de Cruz e Sousa.
O branco das impurezas de Drummond. O branco
do cisne de Sully Prudhomme. O branco-cinza do desespero em
Guernica. O branco infernal do narcotráfico. O branco
opressor do silêncio. O branco devastador da omissão.
O branco amargo deste perdão repleto
de descaso. Despetalando rosas. Despetalando margaridas. Despetalando
avencas. Desintegrando açucenas. Esse branco repleto
de nada instaurando o medo.
O branco desta pele roçagando os meus
pêlos. Acendendo meus relâmpagos. Crispando os
dentes dos meus desejos. Alvoroçando as brancas lavas
deste vulcão em brasa. O branco manso, inebriante destas
mãos espargindo alívios. Despertando encantos.
Ah! As nuvens que se esgarçam. Em vão,
espaço afora. Em vão. Como estes sonhos, vão
dar em nada. As nuvens desta alvorada. Formando-se rápidas
a cada rajada de águas flácidas. Fluidas. E
cálidas como estas tuas mãos sábias.
Pondo em brancas nuvens minha razão. Espreitando o
obscuro branco de espasmos sãos. Despertando. Brancuras
de linho em colchão.
O branco da indecisão. Tomando-nos.
Engatilhando o pânico ante o enxame ousado de esfinges:
devoramos-te! Devoramos-te!.
O branco que a morte deflagra. E nos põe
impotentes ante a sua prepotência inexorável.
E nos punge. E nos consterna. E nos abandona no deserto de
nossas fragilidades. Insulados por horizontes desérticos.
O branco linho desta cambraia. Enxugando lágrimas
em que se convertem lástimas. Raivas. Dádivas.
O branco da paz embandeirada perdida. Em agonia infinda. Na
sua agonia de UTI. Entre o sim e o fim.
O corpo dado aos jasmins. Se possível,
passageiro da carruagem dos querubins. Enfim, o branco do
lençol. A bênção. Amém.