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Das inquietações
Data 23/jun/2000

Noite andada. Escasseiam os rumores da cidade. Cada vez mais engole-a a serpente do sono.

Então, nítido, inconfundível percute o ar aquele canto, ou lamento, ou grito? Tom meio metálico. Nada cálido. Ao contrário, há, nele, um quê de pungência.

Estranho. Nada que evoque pássaro, ou animal. Doméstico, ou não, que se saiba. Entanto, ao mesmo tempo parece que sim. Mas esse, seu nome, sua imagem não acodem.

Dolente som. Não se perde-o No gabinete de trabalho. Pela ampla janela, ele se insurge. Intervaladamente inquietando leituras, escritos.

Que seria? No começo, o incômodo próprio do descostume foi absoluto. Saiu ao quintal. À rua. Percorreu a quadra. E o som, ou o grito? Não de gente, grito de bicho? Bicho ---- animal, pássaro de porte, sofrendo.

Tornado a casa, pôs-se a espiar o casal de bem-te-vi do cajueiro. Ali, alguns metros acima do chão, dormem. Alheios a todos os barulhos domésticos. Ao sono, relaxam-se. Ficam volumosos. Nada os abala, acostumados. Esperou. O grito percutiu algumas vezes. Os bem-te-vis nem aí. Continuaram imperturbavelmente gordos de sono.

No gabinete, o cão esparramado no seu, dele, lugar predileto ressonava. Observou-o Também nenhum dos gritos importunou-o Despertou-o Ele veio, ganhou afagos e palavras de carícia. Depois mandou-o ir deitar-se novamente. Queria-o despertado ante aos novos gritos. Ficaram fitando-se algum tempo. Os gritos se fizeram. Nenhuma reação.

Seria coisa da sua cabeça? Precisaria constatar. No quarto, inquiriu a mulher. Ela também ouvia. Atribuiu-o à ronda dos guardas-noturnos, desejou-lhe boa-noite e dormiu.

Ficou menos perturbado. Todavia, a leitura dispersava. As ações narradas no romance intermeadas pelo grito. Na circularidade de imagens que o povoavam, a de seu cão lá no gabinete insistia. Súbito, tomou-o a agonia de Laika. Uma semana de intenso sofrimento.. Roía-a um câncer de mama. Mama que nunca entumecera de leite. Entumecia-a agora o câncer. Noite alta. Laika gania. A dor lacerava-a Seu uivo afligia-o Levantava-se. Ia até ela. Tomava-lhe a cabeça. Ficava acarinhando-a Falando-lhe. Seus uivos iam baixando. Ficavam choramingas. Ela, ainda que nesse estado, dispensava-lhe algumas lambidas. Assim. Até que adormecia. Saía pé ante pé, como quem põe no berço uma criança adormecida depois de muito chorar. Manhã cedinho ia vê-la na agonia. Assim até o dia que a encontrou enrijecida pela morte. Ainda naquela noite havia ido consolá-la.

O grito agônico como os de Laika. Eis que o enigma se desfaz. Como o de Laika esse grito era de morte. E pedia consolo. Entanto, não o sabia onde. Mas sua profunda consternação talvez o mitigasse.

E tudo assim fora que, após breve esquecimento, quis saber do grito. E não o mais tivera. Não havia mais aquele grito, ou canto, ou lamento nas noites. Desaparecera como os uivos de Laika.



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