Noite andada. Escasseiam os rumores da cidade.
Cada vez mais engole-a a serpente do sono.
Então, nítido, inconfundível
percute o ar aquele canto, ou lamento, ou grito? Tom meio
metálico. Nada cálido. Ao contrário,
há, nele, um quê de pungência.
Estranho. Nada que evoque pássaro,
ou animal. Doméstico, ou não, que se saiba.
Entanto, ao mesmo tempo parece que sim. Mas esse, seu nome,
sua imagem não acodem.
Dolente som. Não se perde-o No gabinete
de trabalho. Pela ampla janela, ele se insurge. Intervaladamente
inquietando leituras, escritos.
Que seria? No começo, o incômodo
próprio do descostume foi absoluto. Saiu ao quintal.
À rua. Percorreu a quadra. E o som, ou o grito? Não
de gente, grito de bicho? Bicho ---- animal, pássaro
de porte, sofrendo.
Tornado a casa, pôs-se a espiar o casal
de bem-te-vi do cajueiro. Ali, alguns metros acima do chão,
dormem. Alheios a todos os barulhos domésticos. Ao
sono, relaxam-se. Ficam volumosos. Nada os abala, acostumados.
Esperou. O grito percutiu algumas vezes. Os bem-te-vis nem
aí. Continuaram imperturbavelmente gordos de sono.
No gabinete, o cão esparramado no
seu, dele, lugar predileto ressonava. Observou-o Também
nenhum dos gritos importunou-o Despertou-o Ele veio, ganhou
afagos e palavras de carícia. Depois mandou-o ir deitar-se
novamente. Queria-o despertado ante aos novos gritos. Ficaram
fitando-se algum tempo. Os gritos se fizeram. Nenhuma reação.
Seria coisa da sua cabeça? Precisaria
constatar. No quarto, inquiriu a mulher. Ela também
ouvia. Atribuiu-o à ronda dos guardas-noturnos, desejou-lhe
boa-noite e dormiu.
Ficou menos perturbado. Todavia, a leitura
dispersava. As ações narradas no romance intermeadas
pelo grito. Na circularidade de imagens que o povoavam, a
de seu cão lá no gabinete insistia. Súbito,
tomou-o a agonia de Laika. Uma semana de intenso sofrimento..
Roía-a um câncer de mama. Mama que nunca entumecera
de leite. Entumecia-a agora o câncer. Noite alta. Laika
gania. A dor lacerava-a Seu uivo afligia-o Levantava-se. Ia
até ela. Tomava-lhe a cabeça. Ficava acarinhando-a
Falando-lhe. Seus uivos iam baixando. Ficavam choramingas.
Ela, ainda que nesse estado, dispensava-lhe algumas lambidas.
Assim. Até que adormecia. Saía pé ante
pé, como quem põe no berço uma criança
adormecida depois de muito chorar. Manhã cedinho ia
vê-la na agonia. Assim até o dia que a encontrou
enrijecida pela morte. Ainda naquela noite havia ido consolá-la.
O grito agônico como os de Laika. Eis
que o enigma se desfaz. Como o de Laika esse grito era de
morte. E pedia consolo. Entanto, não o sabia onde.
Mas sua profunda consternação talvez o mitigasse.
E tudo assim fora que, após breve
esquecimento, quis saber do grito. E não o mais tivera.
Não havia mais aquele grito, ou canto, ou lamento nas
noites. Desaparecera como os uivos de Laika.