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Recidiva
Data 16/abr/2000

Anoitece. Sábado de noite. A inebriação da folga. A permissão para ficar à toa. Sem remorsos. Fazer os descompromissos à vontade. Ler desobrigadamente. Sem hora para dormir. Madrugar em casa. Ficar indo e vindo aos petiscos. Bebericando seu gole de cerveja. Assistir a um ou outro programa de televisão, quando vale. Passar em revista os jornais atrasados. Percorrer um pouco pela Internet. Dispensar um pouco mais de festa aos cães.

Sábado à noite em casa, se retempera a liberdade ao sabor da boa vadiagem.

Em casa, sábado, a noite é toda sortilégios. Ainda que tenha feição de rotina. Santo sábado de casa!

Via televisão. A casa regalada em sua atmosfera de sábado de noite. Via um programa a que se habituara. Assim, como se vê novela. Ia ao sabor daquele conluio entre espectador e programa. Uma pausa para os comerciais. Pausa para renovar a cerveja. Revisitar a geladeira. Abastecer-se levemente, que muitas idas ainda se farão. Tornar à poltrona. Relaxadamente, reconectar-se ao programa. Demoram-se pouco as propagandas. A emissora (ainda) é estatal. Tudo nesse embalo bom de uma vida provinciana ajustada. Quase nenhum barulho. Aquele programa ia excelente. Almir Sater cantara alguns de seus sucessos. Pena Branca e Xavantinho também já haviam cantado "Cio da terra". Algumas duplas caipiras também. Inesita tornitroara por sua vez canções clássicas da música caipira, como sempre o faz. Uns repentistas martelaram competentemente uns redondilhos.

Depois foi a vez de Renato Teixeira. O programa era dedicado a seus tantos anos de carreira naquela trilha de música popular-caipira. Cantou sozinho Cantou com Almir Sater composição de ambos. Cantou com Pena Branca e Xavantinho.

Um belíssimo sábado de "Viola minha Viola". A casa gostosamente queda em sua inebriação de sábado à noite. Somente o barulho noturno dos veículos lá fora. Inesita, já circundada por todos os músicos, com Renato Teixeira do lado. É o cenário de encerramento. E solta seu contralto, seguido daquele coral improvisado, cantando a clássica "Romaria" Então, seus olhos, distraindo-se ante ao cristalizado na telinha, viram Totó à porta da cozinha em ação de ataque-defesa contra algo rateiro na varanda.

Fixou-se em Totó. A Cultura já punha no ar outra programação. Recompunha o espírito para fazer outra coisa. Totó acirra sua movimentação e latidos. Correu até lá. Mal viu uma graúda mancha que, com sua chegada, intentou uma fuga pelo canto da parede semi-escura.

Quando deu por si, o pé esquerdo já havia esmagado o animal. Era uma caranguejeira. Um espécime magnífico. Nunca tinha visto igual. Ficou aturdido. Maldizendo-se. Veio-lhe, num átimo, a voz recriminadora do filho biólogo, quando, impelido pela mesma impulsão, esmagara a "Cecília", a cobra cega que não é cobra cega.



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