Anoitece. Sábado de noite. A inebriação
da folga. A permissão para ficar à toa. Sem
remorsos. Fazer os descompromissos à vontade. Ler desobrigadamente.
Sem hora para dormir. Madrugar em casa. Ficar indo e vindo
aos petiscos. Bebericando seu gole de cerveja. Assistir a
um ou outro programa de televisão, quando vale. Passar
em revista os jornais atrasados. Percorrer um pouco pela Internet.
Dispensar um pouco mais de festa aos cães.
Sábado à noite em casa, se retempera
a liberdade ao sabor da boa vadiagem.
Em casa, sábado, a noite é toda
sortilégios. Ainda que tenha feição de
rotina. Santo sábado de casa!
Via televisão. A casa regalada em sua
atmosfera de sábado de noite. Via um programa a que
se habituara. Assim, como se vê novela. Ia ao sabor
daquele conluio entre espectador e programa. Uma pausa para
os comerciais. Pausa para renovar a cerveja. Revisitar a geladeira.
Abastecer-se levemente, que muitas idas ainda se farão.
Tornar à poltrona. Relaxadamente, reconectar-se ao
programa. Demoram-se pouco as propagandas. A emissora (ainda)
é estatal. Tudo nesse embalo bom de uma vida provinciana
ajustada. Quase nenhum barulho. Aquele programa ia excelente.
Almir Sater cantara alguns de seus sucessos. Pena Branca e
Xavantinho também já haviam cantado "Cio
da terra". Algumas duplas caipiras também. Inesita
tornitroara por sua vez canções clássicas
da música caipira, como sempre o faz. Uns repentistas
martelaram competentemente uns redondilhos.
Depois foi a vez de Renato Teixeira. O programa
era dedicado a seus tantos anos de carreira naquela trilha
de música popular-caipira. Cantou sozinho Cantou com
Almir Sater composição de ambos. Cantou com
Pena Branca e Xavantinho.
Um belíssimo sábado de "Viola
minha Viola". A casa gostosamente queda em sua inebriação
de sábado à noite. Somente o barulho noturno
dos veículos lá fora. Inesita, já circundada
por todos os músicos, com Renato Teixeira do lado.
É o cenário de encerramento. E solta seu contralto,
seguido daquele coral improvisado, cantando a clássica
"Romaria" Então, seus olhos, distraindo-se
ante ao cristalizado na telinha, viram Totó à
porta da cozinha em ação de ataque-defesa contra
algo rateiro na varanda.
Fixou-se em Totó. A Cultura já
punha no ar outra programação. Recompunha o
espírito para fazer outra coisa. Totó acirra
sua movimentação e latidos. Correu até
lá. Mal viu uma graúda mancha que, com sua chegada,
intentou uma fuga pelo canto da parede semi-escura.
Quando deu por si, o pé esquerdo já
havia esmagado o animal. Era uma caranguejeira. Um espécime
magnífico. Nunca tinha visto igual. Ficou aturdido.
Maldizendo-se. Veio-lhe, num átimo, a voz recriminadora
do filho biólogo, quando, impelido pela mesma impulsão,
esmagara a "Cecília", a cobra cega que não
é cobra cega.