Indo para casa em seu automóvel. O
impulso em experimentar o exercício prescrito: "se
sozinho, enquanto dirige, por exemplo, faço-o".
Ia fazendo. O ar expelido produzindo, enquanto permite o fôlego,
a vibrante múltipla: /rr/, /rr/, /rr/, /rr/...
"Terá que valer-se de um excelente
exercício, sabe qual? Fácil", e o expressou
dando o modelo. A fala infindável dela desfiando conhecimentos
em que causas e efeitos fonoaudiólogos, fonéticos
pululavam. Só não enfarava, porque, simpática,
afável, bonita. Prescrevera a execução
do exercício sem esquecimento e preguiça. Tratava-se
de uma fenda nas cordas vocálicas. Estavam flácidas.
Doença profissional (e de velhice à vista).
Ia, pois, experimentando o exercício.
A língua vibrando. Não soube por que capricho
perpassou-lhe serpente em ponto de bote. Silenciou-se. Aquilo
começava a configurar-se-lhe como ridículo.
Certo que havia a exigência terapêutica; que,
por isso, aquela cena bufa se desenrolava diante de si mesmo.
Funcionava como ator e espectador.
Em casa. Antes de apagar o motor, ainda ensaiou
mais uma vez o exercício. Sentiu-se pejado. Imaginara
a cara da família a pegá-lo no escritório,
no banheiro guinchando aquele som triturador. Aquele som de
trator antigo. Aquele som de britadeira. Em casa. A mulher
a lhe perseguir escavando informações. Que a
consulta foram bem; que haveria sessões de terapia;
que a fonoaudióloga fora sua aluna; que a fonoaudióloga
falara disparadamente (omitira, porém, tê-la
suportado, por bonita, simpática, afável).
Todavia, ela ia buscando o que ele escamoteava.
Vencido, revelou: mandara-lhe brincar de caminhãozinho.
Lembrara-se naquele instante. Menino, os irmãos, alguns
amigos, construindo estradas com pontes, lamaçais e
outras tantas dificuldades a transporem. E cada qual com seu
caminhão enfrentando-as. Caminhãozinho de madeira,
carga pesada.
E cada qual com seu caminhão pelas
perigosíssimas estradas. Lá iam os caminhões
barulhando em sua tração vibrante múltipla
que a criatividade de cada motorista emitia.