Publico, esta semana, um texto de Rubem Braga.
Nosso cronista moderno por excelência e maior. Esse
gênero, a crônica, é de natureza bastante
mutável. Desde sua origem, provavelmente, a mais precisa
são os relatos históricos feitos por escritores
sobre a vida e os feitos de personalidades da nobreza, sobretudo
do reis da Idade Média (Fernão Lopes, cronista
português, é o mais famoso deles, produzindo
seus textos em português arcaico a respeito das dinastias
do reino português), aos nossos dias, tendo destaque
no Brasil, desde os cronistas do descobrimento, já
com matizes nitidamente novos com os Românticos e Realistas,
passou por seguidas metamorfoses. Hoje, sua versatilidade
estilística permeia entre uma linguagem voltada para
o cotidiano, mas eivada de ficção e lirismo
e, ora propende com maior ênfase para um, ora para outro.
Quando não visivelmente mesclados. Temas variados,
recorrendo muito a recordações de fatos de sua
infância e da vida adulta.
Rubem Braga, falecido em 1990, no Rio de
Janeiro, foi, conquanto houvesse se formando em Direto em
1932, a vida inteira jornalista radicado no Rio de Janeiro
(Nasceu em 1913 e viveu sua infância em Cachoeiro de
Itapemirim, Espírito Santo). Como tal, viajou muito
pelo Brasil e por muitos outros países, cobrindo fatos
históricos tanto nacionais quanto mundiais importantíssimos,
como por exemplo a participação da Força
Expedicionária Brasileira na Itália, por ocasião
da Segunda Guerra Mundial.
Em estilo mesclado pela lirismo quase sempre
extraído do cotidiano ou da recordação
aguçada, Rubem Braga escreveu crônicas com nítidos
caracteres de minicontos tendendo para uma prosa marcadamente
poética.
Ai de ti, Copacabana (1944), A Traição
das Elegantes (1967), Recados de Primavera (1984) são
alguns do seus livros.
No estilo do contador de causos do interior
do país, o narrador conta a história de um vilarejo
pobre, um caso que ele, por sua vez, ouviu de uma outra pessoa:
"um homem velho que esteve lá". Trata-se
de um vilarejo perdido no sertão de Goiás, de
cujo nome não tem certeza, mas cuja pequena igreja
possui um sino de ouro, forjado pelos seus habitantes, "de
ouro catado e fundido na própria terra goiana dos tempos
de antigamente". Os habitantes recusam o progresso e
se satisfazem com uma vida pacata, "louvando a Deus como
o sino de ouro". O narrador afirma que "se Deus
não existe não faz mal. O ouro do sino de ouro
é neste mundo o único ouro de alma pura, o ouro
no ar, o ouro da alegria." E conclui:
O homem velho me contou isso com espanto e
desprezo. Mas eu contei a uma criança e nos seus olhos
se lia seu pensamento: que a coisa mais bonita do mundo deve
ser ouvir um sino de ouro. Com certeza é esta a mesma
opinião de Deus, pois ainda que Deus não exista
ele só pode ter a mesma opinião de uma criança.
Pois cada um de nós quando criança tem dentro
da alma seu sino de ouro que depois, por nossa culpa e miséria
e pecado e corrução [corrupção],
vai virando ferro e chumbo, vai virando pedra e terra, e lama
e podridão.