Home
|
Conheça Tito Damazo
|
Textos
|
Contato
|



O Sino de Ouro
Data 19/jan/2000

Publico, esta semana, um texto de Rubem Braga. Nosso cronista moderno por excelência e maior. Esse gênero, a crônica, é de natureza bastante mutável. Desde sua origem, provavelmente, a mais precisa são os relatos históricos feitos por escritores sobre a vida e os feitos de personalidades da nobreza, sobretudo do reis da Idade Média (Fernão Lopes, cronista português, é o mais famoso deles, produzindo seus textos em português arcaico a respeito das dinastias do reino português), aos nossos dias, tendo destaque no Brasil, desde os cronistas do descobrimento, já com matizes nitidamente novos com os Românticos e Realistas, passou por seguidas metamorfoses. Hoje, sua versatilidade estilística permeia entre uma linguagem voltada para o cotidiano, mas eivada de ficção e lirismo e, ora propende com maior ênfase para um, ora para outro. Quando não visivelmente mesclados. Temas variados, recorrendo muito a recordações de fatos de sua infância e da vida adulta.

Rubem Braga, falecido em 1990, no Rio de Janeiro, foi, conquanto houvesse se formando em Direto em 1932, a vida inteira jornalista radicado no Rio de Janeiro (Nasceu em 1913 e viveu sua infância em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo). Como tal, viajou muito pelo Brasil e por muitos outros países, cobrindo fatos históricos tanto nacionais quanto mundiais importantíssimos, como por exemplo a participação da Força Expedicionária Brasileira na Itália, por ocasião da Segunda Guerra Mundial.

Em estilo mesclado pela lirismo quase sempre extraído do cotidiano ou da recordação aguçada, Rubem Braga escreveu crônicas com nítidos caracteres de minicontos tendendo para uma prosa marcadamente poética.

Ai de ti, Copacabana (1944), A Traição das Elegantes (1967), Recados de Primavera (1984) são alguns do seus livros.

No estilo do contador de causos do interior do país, o narrador conta a história de um vilarejo pobre, um caso que ele, por sua vez, ouviu de uma outra pessoa: "um homem velho que esteve lá". Trata-se de um vilarejo perdido no sertão de Goiás, de cujo nome não tem certeza, mas cuja pequena igreja possui um sino de ouro, forjado pelos seus habitantes, "de ouro catado e fundido na própria terra goiana dos tempos de antigamente". Os habitantes recusam o progresso e se satisfazem com uma vida pacata, "louvando a Deus como o sino de ouro". O narrador afirma que "se Deus não existe não faz mal. O ouro do sino de ouro é neste mundo o único ouro de alma pura, o ouro no ar, o ouro da alegria." E conclui:

O homem velho me contou isso com espanto e desprezo. Mas eu contei a uma criança e nos seus olhos se lia seu pensamento: que a coisa mais bonita do mundo deve ser ouvir um sino de ouro. Com certeza é esta a mesma opinião de Deus, pois ainda que Deus não exista ele só pode ter a mesma opinião de uma criança. Pois cada um de nós quando criança tem dentro da alma seu sino de ouro que depois, por nossa culpa e miséria e pecado e corrução [corrupção], vai virando ferro e chumbo, vai virando pedra e terra, e lama e podridão.



Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003, Poetagem - www.poetagem.com.br

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético