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Evocação do Recife
Data 11/jan/2000

Evocação do Recife é um dos poemas que eu incluiria naquela lista dos cem mais do século. Primeiro pela extraodinária beleza com que é capaz de desvelar a alma inocente, segura e feliz de uma criança; que assim deveria sempre a de quaisquer delas, seja de onde for, seja de que raça for, seja de que classe social for. Bandeira revela a pureza, a ingenuidade, a curiosidade, os limites sendo exercitados plenamente pela liberdade que se deve à infância. Que, adulta, depois, estruturada, possa recordar e comparar.

Depois, o enraizamento de uma formação cultural voltada para o país como um todo: a sintetização de uma vida coletiva, popular prezada, estimada, conquanto as desigualdades estejam aí sempre demarcadas e a desafiar.

Poema solto, dos mais belos e competentemente trabalhados em verso livre. Ícone dos maiores de uma poética que se despojava tanto do ranço sentimentalista de permanência romântica, quanto do artificialismo formal parnasiano. Um lirismo de forte "emoção/crítica". Bandeira um dos cérebros célebres do Modernismo brasileiro, iniciado em 1922, tornou-se, desde então, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Sua poesia é profundamente marcada de um pessoalismo vigoroso, que salta a cada verso. Veja-se, por exemplo, nesse poema a repetição de "Capiberibe/--- Capibaribe". Ao que se sabe, o primeiro era como o menino escolar pronunciava o famoso rio recifense. o Segundo era a correção que lhe fazia o professor de português.

"Evocação do Recife"está em "Libertinagem", publicado em 1930.

Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Maurisstad dos armadores das Índias
Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois --
Recife das revoluções libertárias

Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de dona [Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mericos, namoros, risadas

A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam

Coelho sai!
Não sai!

À distância as vozes macias das meninas politonavam:

Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão

(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)

De repente
nos longes da noite
um sino

Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo

Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido

Capiberibe
--- Capibaribe

Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha

Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento

Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redomoinho sumiu
E no pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em

Novenas
Cavalhadas
Eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos [meus cabelos
Capiberibe
--- Capibaribe

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor dos roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido

Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil

Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada

A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam

Recife...
Rua da União
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade

Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô



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