Evocação do Recife é
um dos poemas que eu incluiria naquela lista dos cem mais
do século. Primeiro pela extraodinária beleza
com que é capaz de desvelar a alma inocente, segura
e feliz de uma criança; que assim deveria sempre a
de quaisquer delas, seja de onde for, seja de que raça
for, seja de que classe social for. Bandeira revela a pureza,
a ingenuidade, a curiosidade, os limites sendo exercitados
plenamente pela liberdade que se deve à infância.
Que, adulta, depois, estruturada, possa recordar e comparar.
Depois, o enraizamento de uma formação
cultural voltada para o país como um todo: a sintetização
de uma vida coletiva, popular prezada, estimada, conquanto
as desigualdades estejam aí sempre demarcadas e a desafiar.
Poema solto, dos mais belos e competentemente
trabalhados em verso livre. Ícone dos maiores de uma
poética que se despojava tanto do ranço sentimentalista
de permanência romântica, quanto do artificialismo
formal parnasiano. Um lirismo de forte "emoção/crítica".
Bandeira um dos cérebros célebres do Modernismo
brasileiro, iniciado em 1922, tornou-se, desde então,
um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Sua
poesia é profundamente marcada de um pessoalismo vigoroso,
que salta a cada verso. Veja-se, por exemplo, nesse poema
a repetição de "Capiberibe/--- Capibaribe".
Ao que se sabe, o primeiro era como o menino escolar pronunciava
o famoso rio recifense. o Segundo era a correção
que lhe fazia o professor de português.
"Evocação do Recife"está
em "Libertinagem", publicado em 1930.
Evocação do Recife
Recife
Não a Veneza americana
Não a Maurisstad dos armadores das Índias
Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois --
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A Rua da União onde eu brincava de
chicote-queimado e partia as vidraças da casa de dona
[Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada
com cadeiras, mericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam
Coelho sai!
Não sai!
À distância as vozes macias das
meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repente
nos longes da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir
ver o fogo
Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
--- Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores
destroços redomoinho sumiu
E no pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos
em
Novenas
Cavalhadas
Eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar
a mão nos [meus cabelos
Capiberibe
--- Capibaribe
Rua da União onde todas as tardes passava
a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor dos roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais
nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do
Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas
que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de
meu avô